O melhor o tempo esconde
Longe muito longe
Mas bem dentro aqui...
(Trilhos Urbanos- Caetano Veloso)
Fazia tempo que Suzana não via Antonio.
Não que ela quantificasse em dias, semanas, meses, isso não, Suzana
já havia percebido que o tempo não se mede desse jeito, mas sim
pela ansiedade ou pela falta dela.
Meses atrás algumas poucas horas que separavam os telefonemas de Antonio
pareciam séculos, agora não.
Ao vê-lo ali, sentado num canto do feérico salão do restaurante,
ela pos-se a pensar quanto tempo fazia desde a última vez.
Estarrecida percebeu que muito havia passado sem que ela se desse conta.
O distanciamento foi duro.
O terrível caso de paixão que tinham vivido causou muitas complicações.
Nenhum dos dois era exatamente livre e descompromissado e, a pior das constatações:
nem jovens o suficiente para saírem pela vida queimando navios ou derrubando
barreiras...
Foi um paradoxo: Antonio e Suzana viveram uma paixão escondida que, estranhamente,
buscou a estabilidade de um relacionamento normal e cotidiano.
Deu no que deu.
Agora, ali, diante dele, a quem entregara seus últimos sonhos ela sabia
que não tinha volta.
Como duas pessoas educadas e civilizadas eles compartilharam o belo jantar.
Às quatro.
A conversa corria amena, fácil e quase divertida como deve ser entre
velhos amigos.
Nessa noite, tantos meses despercebidos depois, Suzana pode olhar nos olhos
de Antonio sem medo de se trair.
Tudo de antes fazia parte de antes, ficara lá atrás, parado e
cristalizado no tempo.
O coração, ainda e bem no fundo, tentou bater um pouco mais descompassado,
mas não se manteve por mais que uns poucos segundos.
Fazia tempo que Suzana não via Antonio.
E não houve dor, nem desespero, apenas uma breve saudade, melhor, uma
nostalgia.
Na saída eles se abraçaram na despedida e ela soube, então,
que agora era para sempre.