A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Enfeites de Natal

(Eugênia Ventura

Ontem estava me lembrando dos Natais de minha infância. Na verdade lembrava os enfeites de Natal.

No velho casarão da Avenida Rebouças (sim morávamos naquela via movimentada, imaginem quanto tempo faz!) minha mãe, festeira de primeira, mantinha uma série de rituais nesse período.

A árvore, um galho de pinheiro gigantesco, era colocada num canto da sala, tomando quase que todo o espaço.

As bolas, que naqueles dias eram só vermelhas e de vidro, hiper delicadas eram tiradas de caixas etiquetadas e manuseadas como jóias. A colocação requeria muita delicadeza, pois as bichas quebravam só de olhar...A perda de qualquer uma representava uma bronca e tristeza, uma vez que tais enfeites eram caros e difíceis de achar, já que naqueles dias também não existiam os camelôs nem muito menos supermercados ou lojas de departamento onde se comprar outras.

Mamãe também guardava com cuidado todos os outros enfeites: estrelas de purpurina, carinhas de papai Noel, botinhas de feltro bordadas com esmero, festões, fitas e o presépio de barro, bem singelo quase infantil que fora feito por meu avô, um artesão oblíquo.

Quando tudo ficava pronto a sala mergulhava, pelo menos na minha imaginação de criança, num clima de mistério e magia. Todas as noites, até o dia de Natal, os candelabros com velas de cera eram acesos e uma luz quase bíblica inundava o lugar.

Graças aos cuidados de minha mãe, ainda possuo muitos desses enfeites e, exatamente como ela, os guardo o ano todo com carinho.

Esse ano eu quebrei a tradição, não tive animo nem pique para as arrumações, talvez por ser o primeiro Natal sem ela, que me deixou num dia 5 de janeiro.

Meio com pena dos meus filhos que se habituaram à casa enfeitada, coloquei meio de qualquer jeito, alguns fios de luz colorida, uns centros de mesa e o presépio de seu avô na peça de mármore. Árvore nem pensar.

Hoje, um dia de Dezembro, acordei com o barulho da chuva que caiu sobre a cidade. Desci e com minha caneca de café nas mãos, olhei para meu jardim sob a cortina de água. Ali, em minha janela, os hibiscos, que plantei anos atrás, quase que dobraram de tamanho e avançaram pelas grades.

Lindas flores vermelhas cheias de vida e beleza desabrocharam por entre as folhas verdes.

O verde e o vermelho, a cara do Natal.

Agora sim, minha casa está com enfeitada, por obra e graça da natureza generosa.

Pensei em mamãe, pensei no seu amor ao Natal, pensei em seu cuidado.
Espero que, onde estiver ela goste...

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