Ao ver correndo um vulto no final da rua, lá pelas uma da madruga, Antônio
ficou paralisado. Estático, com o cigarro na boca, tentava identificar
a face que se aproximava rapidamente. Acalmou-se depois que viu que era uma
mulher, cabelos longos.
- Roberta! O quê está fazendo aqui a esta hora?
Transtornada e ofegante, balbuciou algumas palavras ininteligíveis e
prosseguiu:
- É o dragão Antônio! Ele voltou. Ele vai me matar, juro
que vai me matar. Socorra-me!
-Calma, calma. Que negócio é esse de dragão? Eu não
estou entendendo nada, você está fugindo de quem?
- É dele que estou tentando fugir. Ele vem me perseguindo a muito tempo.
Me faz fazer coisas que eu na quero, coisas que não sou capaz, ser uma
pessoa que não sou. Ele veio me prender. Me prender e me matar!
-Você não está falando coisa com coisa. É um bicho
que você viu no mato e estava fugindo? É isso?
- É. Isso mesmo.
- Mas, se acal-me, eu não estou vendo bicho nenhum. Ele já deve
ter se ido embora.
E agora, com o fôlego, disse:
- Não, ele ficou lá em casa... Ele estava sentado na mesa da cozinha
e disse que estava escrevendo um poema e ia ler para mim quando eu voltasse.
Apavorada, deixei todas as panelas no fogo e fugi. Não deixe ele chegar
perto de mim Antônio, por favor... Juro que morro só de vê-lo!
- Então foi um homem que invadiu a sua casa, um desconhecido? Eu chamo
a polícia já!
- Não droga! Eu já te disse é um dragão! E eu o
conheço bem, é verde e marrom, possui uma calda longa, e não
tem chifres, sem nenhum chifre. Mas não se pode deixar enganar, entende?
- Você está louca, mulher? Bebeu?
- Não, não estou. Mas ele vai me deixar. Não me deixa sozinha
Antônio, por favor fica comigo.
Antônio, que tinha a esta altura Roberta abraçada em seu braço,
respirou fundo e tentou acalmá-la.
-Já disse pra ter calma. Eu te acompanharei até sua casa e você
verá como não há nada está bem. Vamos.
- Não... ele está me esperando... vai me furar com aqueles olhos
quando eu estiver dormindo, ao meu lado. Invejando meus cabelos... Não!
- Vamos logo, você está estérica!
Agarrou-a pelo braço e a puxou por dois passos.
-Não, me solta - e livrando-se dele num gesto brusco, gritou: - Ai! Deus
acuda-me! Socorro, socorro! O dragão, o dragão.
As luzes da vizinhança começaram a se acender e, no meio do coral
dos cachorros, ela correu até o fim da rua e sumiu no breu da noite.
Nunca mais foi vista.