Existem certas coisas que não me entram na cabeça. Por exemplo,
a beleza. Não quero ser precipitado em meus pensamentos confusos, mas
acho que todos desejam serem belos, digo, bonitos, pois o termo belo sempre
me lembra o período medieval e uma fala diferente da que uso, caprichos
da linguagem. Por que diabos, desejamos ser bonitos? Bom, o ser humano como
ser social busca, para se sentir realizado e encontrar, mesmo que transitoriamente,
a felicidade, que é fim último, se relacionar com outros seres
humanos. Ouvi isso em algum lugar, talvez a TV, e também me lembro de
algo que dizia ser de natureza biológica os seres sentirem aversão
pelo que é feio e atração pelo bonito, algo como afastar-se
do que é nojento para evitar doenças. A partir disso procurei
tirar algumas conclusões, alguma confusas e talvez sem lógica,
mas vá lá, filosofar se aprende filosofando. Os humanídios,
que é como chamarei a partir daqui os seres humanos, buscam não
só serem bonitos, mas embonitarem-se continuamente para se destacarem
em um meio social e serem admirados e tomados como formas ideais, ganhando,
assim, caráter de valor, talvez poder também, que tendem a conduzi-los
a felicidade.
Assim, todos os humanídios, hipoteticamente, gostam de se sentirem bonitos.
Bom, resolvi testar essa hipótese.
Saí imediatamente e logo encontrei uma moça que lia um desses
livros do tal Paulo, sentada no banco da praça logo ao lado de minha
casa. Aproximei-me com cuidado e sentei-me ao lado dela. Não era feia
nem bonita, meio daquele jeito apático.
- Bom-dia, disse.
- Bom-dia.
Não falei mais nada, comecei a olha-la lendo, aparentando muita admiração.
Não demorou muito ela percebeu meu olhar indiscreto. Mantive-me firme
no objetivo de testar minha hipótese, continuei o teatro.
- Quê foi?
- Desculpe-me, mas não pude deixar de reparar seus olhos lendo, são
tão lindos.
- Obrigada, respondeu meio indiferente, continuei.
- A senhora é muito bonita, nunca vi uma beleza assim tão natural,
esses cabelos presos e os óculos dão uma impressão de intelectualidade.
E...
- O senhor me desculpe, mas não gosto de ficar sendo elogiada por desconhecidos.
Com licença. E se levantou e foi saindo, mas não desisti, levantei-me
e entrei na sua frente.
- Mas por quê? Você não sente prazer, não se sente
melhor se sentindo bonita?
- Como assim se sentindo... ora, tome! Que é pra ter mais respeito, tarado
louco.