A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
  • aumentar a fonte
  • diminuir a fonte
  • versão para impressão
  • recomende esta página

Beleza íntima

(Filosofastro)

Toc-toc-toc na porta do quarto de Rita.

- Você já está pronta minha filha?

- Já vai! Espera um pouco.

Mariana desceu as escadas e sentou a mesa com seu marido que lia o jornal ao lado de uma xícara vazia.

- Ela disse que já está descendo...

Mal terminada a frase, o som dos passos na escada denunciam Rita, os que a esperavam vão até a porta da frente esperá-la. De lá ficam surpresos com a filha.

- Nossa, filha! Quanta maquiagem, quase não te reconheço, disse o pai.

- Para com isso Otávio! Você está linda filha, agora vamos logo antes que nos atrasemos.

Era assim todos os sábados, às vezes iam ao teatro, outras ao cinema, enfim. Os pequenos quatorze anos de Rita não escondiam sua beleza física. Era alta e magra, cabelos negros quase longos e olhos profundos auxiliados pela maquiagem. Sua beleza infantil somado a sua sensualidade adulta atraíam os mais audaciosos olhares nas ruas.

Desde que Mariana lhe ensinara a usar seus batons, sombras e outras coisas, a pequena foi tomando um gosto ímpar pela atividade. Caprichos da idade, afinal já era quase moça feita como diziam os tios que freqüentemente os visitavam.

Ha! Se ela soubesse na sua terna infância que não importa o quanto se pinte o ovo um dia ele, fatalmente, se quebrará. Grita e grita a beleza que se vai para conseguir um não se sabe que de um mistério, assim, turvo e doido. É fato consumado. Veio o pedido: "posso usar um pouco para ir à escola, todas usam", como negar o que não se nega. O espelho do quarto não cansava de refletir a mesma imagem todos os dias de manhã. Os olhos frios ganhando cor, o cabelo forma, o batom audaz que beija os lábios virgens. No jogo de Narciso não se encontra culpados nem vítimas, só atores atordoados de ópio. O princípio é sempre o isolamento, onipotente e absoluto. O telefone tocou: "alô, é a mãe de Rita... bem, sua filha, não de hoje... fora da aula... rapazes, tu sabes?" Atordoada perdeu-se a razão.

Castigo é não viver, o pássaro que não voa. "De casa você não sai". Choro e mais choro enchiam a casa, Otávio nem acreditava, estaria grávida?

Totoc-toc na porta.

- Já está dormindo, filha?

- Não...

Entra, e surpreende-se ao ver Rita em frente ao espelho.

- O quê você está fazendo! Já disse que daqui você não sai. Pare com isso!

- Eu não vou sair, você não entende? Tenho que estar bonita, estou me preparando para quando ele chegar, o sonho.

- Você está louca! Vá limpar essa cara nojenta antes que eu arrebente ela, menina estúpida!

Foi demorou mais de meia hora, lavou-se com álcool e lágrimas. Seu rosto se desfazendo na frente do espelho não pede suportar. Depois do banheiro passou na lavanderia e bebeu um líquido rosa sem saber que utilidade tinha, foi como engolir uma rosa cheirosa e com espinhos. Trancou-se no quarto sem falar com ninguém, e de lá nunca mais saiu bela. Uma rosa com espinhos.

Copyright © 1999-2020 - A Garganta da Serpente