Era uma casa grande de dois andares e vista para um grande lago, ao lado do
quilometro 412 da BR 226 . Logo que chegou, Matilde subiu as escadas analisando
todos os detalhes da nova casa de verão que seu pai havia comprado. Vendera
a antiga e mais um carro para adquira-la. Chegou no seu quarto, jogou sua mala
na cama e pôs-se na janela a observar o grande lago. Várias árvores
em torno do lago e montanhas ao longe. Tentou abrir a janela e respirar o ar
que a seduzia. Fez força, lidou, rubrou, bufou, mas não pode abri-la,
estava emperrada. Pensou no tempo em que aquela janela passara fechado, seu
pai disse que o último morador foi embora com a família para a
França há dois anos. A casa estava em perfeito estado, só
a janela de Matilde não abria. Desceu as escadas e pedia a ajuda de seu
pai
- Amanhã eu vejo isso, Matilde, agora temos que preparar o almoço
e limpar a sala.
Saiu para ver a casa por fora, não tinha nada de especial. Dando a volta
entorno da casa se deparou com sua janela emperrada, pegou uma pedra da terra
amarela e atirou. Mas não passou nem perto, caiu no telhado abaixo da
sua janela, perto da chaminé. Resolveu observar o lago, caminhando entre
as altas árvores que o cercavam ficou admirada com o negro das águas,
parecia um lago sem vida, o vendedor afirmou que ainda havia peixes...
No dia seguinte, desceu e tomou seu café e ainda na mesa lembrou seu
pai, que lia uma coluna esportiva, do prometido.
-Está bem, vamos lá.
Subiu as escadas expressando o dissabor de abandonar sua crônica com violentos
passos na madeira ascendente.
-Matilde, vai pegar uma chave de fenda, a do cabo verde. Essa mesmo. Isso...
agora força e... porcaria. Traz o martelo. Quero ver agora. Pronto.
Então lá estava Matilde desdobrada em frente a janela observando
a calmaria do lago. Teve a atenção desviada para as telhas, muitas
das quais já quebradas, que ficavam em baixo de sua janela. Telhas vermelhas,
amarelas talvez, velhas sem dúvida, algumas com musgo verde. Foi acompanhando
a diversidade de cores que se apresentavam a ela, esticando cada vez mais seu
corpo para fora da janela, foi quando viu a chaminé onde atirara a pedra,
nesse momento só estava apoiada pelas mãos pois seus pés
desprenderam-se do chão.
- Menina! Quer morrer é! Tá quase caindo da janela!, disse a mãe.
A pequena envergonhada desceu de seu curto vôo e foi quieta para a sala.
Mas fazer o quê nesse verão, assim, sozinha; nem TV tinham na nova
casa.
No dia seguinte acordou mais cedo que os pais, e ainda de pijama abriu a janela
e, num ímpeto, pulou-a e começou a caminhar pelas telhas, elas
estavam geladas e podia-se sentir o musgo entre os dedos, os galhos e tudo mais
que pode parar em coma de nossas casas. Chegou com muito cuidado perto da chaminé,
com sua mão delicada acariciou-a para sentir seus tijolos que já
se transformavam em areia em seus dedos. E o mesmo ímpeto que a fizera
pular a janela agora a fazia pensar na besteira que estava fazendo. Poderia
cair, se machucar, é muito grande a altura, e mesmo que não fosse
seus pais poderiam descobri-la. Sim, sim, deveria voltar imediatamente, porém
com muita cautela. E um virar infeliz de pescoço, vê uma coisa
estranha.
Era um envelope amarelado e surrado, não se conteve e deu um passo para
pagá-lo. Uma telha se quebrou, tentou se segurar na chaminé mas
ela se quebrava em cada tentativa, caiu e foi deslizando em silêncio total
pelas telhas, os musgos não ajudaram, precipitou-se telhado abaixo tão
aterrorizada que não pode gritar.
Na mesma semana a casa se tornou-se deserta de novo, o lago continuava silencioso,
as árvores imponentes e imparciais a tudo. A carta apenas continha esses
versos:
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida minha face?
Apesar da suavidade dos versos, Matilde sempre será lembrada como uma suicida.