Já passavam das duas da tarde. Na varanda ele lia Dostoiévski.
Não havia vento, mal se ouviam os pássaros nas árvores
ao longe que formavam um imenso muro que escondia boa parte do horizonte. Surge
um som distinto por entre árvores, o som se aproxima rapidamente. Um
automóvel vem chegando e levantando uma grande cortina de poeira marrom
pela estrada. É um Chevrolet já desgastado pelo tempo, a cor azul
lutando contra a negra ferrugem. Um homem alto, com calças de escriturário
botas de camponês sai do veículo e, atravessando a neblina marrom,
se aproxima ofegante. "- Henrique, eles invadiram a cidade! A essa altura
já devem ter ocupado a prefeitura e pego o nosso prefeito cagão!
Assim que soube corri para o carro e estou alertando todos os nossos colegas.
Henrique estava perplexo. Sabia que a cidade, bem como todas as outras ao redor,
poderiam ser invadidas a qualquer momento. Ele, em silêncio, se lembrava
que havia um acordo tramitando, não esperavam que houvesse uma atitude
descabida por parte deles nessa situação. Mas lá estava
Arthur, com suas belas calças e braços suavemente abertos e a
frente de seu corpo sinalizando surpresa, ele continuou: "- Alguns estão
deixando a cidade e vindo para cá, nos campos, onde eles não se
importam de procurar. Mas grande parte quer lutar, estão dispostos a
sacrificar suas vidas!
- E você, o que vai fazer? -disse Henrique ainda com o livro aberto na
página onde fora interrompido.
- É quase certo que quem ficar vai cair nas mãos deles, ou mesmo
morrer.
- Mais do que certo! Eles são soldados treinados e não sabemos
em quanto eles são, não é?
- Sim, eu sei. Além disso, nós só temos espingardas. Os
rifles são muito mais perigosos. Mas temos a vantagem de conhecer o terreno.
- Então você está pensando em ficar lá!
- Ficarei.
- Você tem pai e mãe, como vai deixá-los, hã? E quanto
a Roberta, vai deixá-la chorando a sua morte sem mesmo dar a chance dela
ver e beijar a testa do seu corpo morto. Você sabe como é não
ter o corpo da pessoa amada para se despedir, sabe?
- Cale a boca! Seu merda! Você não vê? Eles já nos
roubaram o nosso jeito de viver. Roubaram até o nosso jeito de andar,
nós não andamos como homens na cidade e sim como vacas! Ninguém
namora nas praças, as pessoas não se falam. Você entende
isso também, eu sei!
- Mas ainda vivemos...
- Vivemos numa caixa que a cada dia tem suas dimensões diminuídas,
que bela vida!
-Quantos temos?
- Uns duzentos, a maioria jovem. Precisamos de mais, não sabemos em quantos
eles são.
Colocou o marcador na página em que parou. Deixou o livro sobre o banco
em que estava. Entrou no carro silenciosamente. O som do motor abafou novamente
o canto dos pássaros.