As pessoas estão admiradas. Os norte-americanos elegeram um negro para ser presidente do país. A mídia parece mariposa se batendo em torno da lâmpada. Como escreveu o poeta José Geraldo Martinez: "O mundo racista continua olhando o presidente negro e não o presidente!" No dia 11 de setembro de 2001, a Al-Qaeda deu um presente para o povo norte-americano com o ataque às torres gêmeas. Alguns podem dizer que seja o cavalo de tróia. Israel já está preocupado, mas isso não é tema para esta crônica, fiquemos na negritude de Barak Obama. O novo presidente dos Estados Unidos não é moreninho, mulato, como se diz por aqui, numa linguagem disfarçadamente preconceituosa. Lá as coisas são mais bem definidas: se tem um pé na cozinha, é negro, nada de eufemismos. Trata-se de um conceito político, nada biológico. Questões de matizes, porque tanto lá como cá, não é fácil carregar a pele escura. Os desvalidos, os escravos, os índios, os oprimidos e explorados pela colonização branca, depois de 500 anos, tornam-se o outdoor das Américas. Nada mais justo. E só chegam ao topo os políticos desses segmentos que assumem um discurso geral, amplo, em nome da nação, sem pregar o rancor de raça ou de classe. Os facciosos podem até ganhar uma eleição, mas não governam, a não ser pela dominação, pela força. Alguns brasileiros fazem uma pergunta: Barak Obama se elegeria presidente no Brasil? Creio que sim. Há uma elite, brasileira, preconceituosa que só vota em gente fina, aquela que soltou e-mails mil contra o Lula, mas felizmente ela está sendo colocada na sua devida insignificância. Não é possível numa civilização que se diz cristã e democrática o desprezo pelo outro por qualquer motivo, embora padres, pastores e outros religiosos cometam tal sacrilégio. Mas também não nos entusiasmemos. Barak Obama é negro, mas é presidente de um império. Os imperadores são cruéis. Liguemos a eleição na corte à comemoração dos 100 anos de Machado de Assis, outro negro, que disfarçou a sua negritude para poder sobreviver, mas construiu uma cena fantástica no livro "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Brás Cubas, branco, senhor, encontrou na rua o negro Prudêncio, aquele em que ele, protagonista, andava a cavalo e chicoteava-o quando era moleque. Então, o negrinho, agora adulto e liberto, comprara um escravo e estava açoitando o irmão de raça. Aprendera a ser um opressor durante a infância. A família é um ninho de amor, mas é nela que são formados os preconceitos mais rancorosos. Barak Obama não é o negro Prudêncio, mas os processos se repetem. Pelo sim ou pelo não, festejemos Obama! Já que estamos em processo de desconstrução, está chegando a hora de o Vaticano ter um papa negro. Ou Deus só protege os brancos?
(9.11.08)