A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Prefeito bem perfeito

(Hélio Consolaro

Araçatuba completará 100 anos na terça-feira. Daqui a 32 dias teremos Cido Sério (PT) no comando dessa espaço-nave. Afinal, o que é ser prefeito?

Recorro a Ladislau Dowbor, professor da PUC-SP, consultor da ONU, para escrever essas maltraçadas linhas.

Na visão antiga, o prefeito era um síndico da cidade, que assegurava o recolhimento do lixo, que a fonte luminosa na praça funcionasse, que os bancos de praça estivessem limpos e acolhedores para os namoros. A função de prefeito se resumia à cosmética urbana.

A população vivia na área rural, cuidando de si mesma, sem precisar muito do prefeito, enquanto as cidades eram basicamente povoadas por camadas mais prósperas.

- Como Araçatuba era tranqüila! - dizem os antigos.

Com a expulsão das pessoas do campo, as cidades se viram cercadas de amplas periferias, carentes de infra-estruturas, de emprego, de serviços sociais.

- Como Araçatuba é violenta! - dizemos agora.

No campo, uma família resolve os seus próprios problemas de lixo, de água, de combustível, de alimentação. Com a urbanização acelerada, o consumo individual foi substituído em grande parte por consumo coletivo.

Criou-se a figura do prefeito preocupado com o social, com a inversão de prioridades. De certa forma, o universo do prefeito ganhou nova complexidade: é necessário, além da cosmética urbana, do social e das infra-estruturas, tomar a cidade atraente para atividades econômicas, formar e requalificar a mão-de-obra, articular interesses diversos.

Passa-se a compreender que a cidade, uma expressão do capitalismo, é complexa, com interesses comerciais e financeiros, patronais e sindicais, rurais e urbanos, diversificados segundo os bairros, segundo os segmentos sociais, segundo a inserção ou exclusão, relativamente aos processos produtivos.

E surge o prefeito articulador, aquele que provoca a sinergia dos "atores sociais", pessoa com visão social aberta, conhecedora de formas mais democráticas de gestão participativa, atenta às inovações urbanas que surgem em diversas partes do planeta - parcerias entre administração pública, as empresas e o terceiro setor. Consórcios intermunicipais, conselhos municipais, tudo isso é a nova linguagem, onde o político já não se reduz ao partidário. Trata-se de gerir de forma integrada uma realidade socioeconômica complexa e dinâmica.

Torcer para que o prefeito se dê mal é atirar no próprio pé, mas também ele precisa fazer com que a oposição seja construtiva, incluindo-a nos projetos de nossa Araçatuba centenária.

Vai dar certo. Araçatuba merece mentalidade nova.

(30.11.08)

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