A tarde era de folia. Ainda não era carnaval, mas folia, folia santa.
Era o encontro de folias de reis com grande comilança. Como parecia,
demonstrava suas feições, havia um casal no salão que bebia
sempre. Bebia para comemorar, bebia para chorar. Os cônjuges não
eram foliões de vestimenta, apenas no comportamento. Era homem e mulher,
pois na modernidade se faz necessário explicar isso.
Era o divertimento deles de domingo à tarde. Os dois saíam e bebiam
cachaça depois de muitos eitos de cana, cortados durante a semana. Produziam
álcool para andar; não, para cair. Eram bêbados de baixo
custo.
A folia, tanto de reisado como de casado, ocorria no salão paroquial
de um bairro bem urbano. Velhos ocupavam as cadeiras com a cabeça pensa
de tanta recordação.
O padre não apareceu para dar sua bênção àquela
festa religiosa. Alguns viam na ausência desprezo; para outros, a festa
era santa por si.
O bêbado demonstrava um ciúme terrível de sua consorte azarada.
Era o Bentinho pobre casado com uma Capitu mais pobre ainda. Percebia-se isso
pelas palavras dele:
- Mulher minha tem que ser séria!
Pescoções masculinos voavam às dúzias em meio aos
palhaços, mas nenhum acertava o alvo. Apesar de bêbada também,
era mais ágil, conseguia se safar. Assim dançavam pelo salão
o balé da pinga.
A comissão organizadora percebeu aquela folia paralela, uma espécie
de pirataria. Enquanto os palhaços faziam estripulias para despistar
soldados de Herodes, os dois bêbados tiravam a atenção das
autoridades, presentes no festejo. Os seguranças, à paisana, resolveram
intervir. Punha o bêbado pra fora, ele voltava. Parecia filme de Charles
Chaplin: ia e voltava, voltava e ia numa rapidez de cena acelerada. Enxugavam
gelo.
Até que os seguranças descobriram que o bêbado tinha uma
bêbada, e ela estava no salão. Resolveram retirá-la também.
Por ser dama, foram mais delicados com ela.
Puseram os dois para fora. Daí a pouco, olha os dois no salão,
os xingos se misturavam com a cantoria. Não se sabia se era reza ou blasfêmia.
Ela se enchia, orgulhosa, por despertar tanto ciúme naquele traste, apesar
de sê-lo também.
Herodes não pôs as mãos no Menino Jesus, mas José
e Maria daquela tarde bêbada foram levados por uma viatura policial. Acho
que não tinham filhos. Se tivesse, estaria pedindo no templo.
(05.02.09)