Tenho certeza de que meu caro leitor já passou por algum lugar e tenha
pensado: já estive aqui antes, sem antes ter passado por ali. Cada explicador
do além dá sua interpretação ao fato.
Acalme-se, senhor cético, não me aventurarei a escrever textos
de autoajuda, nem tenho vocação para mago. Não concorro
com Paulo Coelho.
Outro dia ocorreu-me coisa semelhante. Caminhar a pé pelas ruas da cidade
me proporciona, caro leitor, surpresas agradáveis. Isso se se gosta de
observar o mundo com um olhar de estranhamento, procurando buscar o rio submerso
que corre por trás dos fatos.
Dou um exemplo banal e surrado. Se um garota surra sua boneca, certamente repete
o que fazem com ela. Um garoto não tem olhos assustados em vão.
Cada ato revela mais do que ele mesmo.
Assim, caminhava por uma rua, quando vi uma senhora idosa no alpendre de uma
casa bem simples, daquelas que as paredes pedem uma demão de tinta para
ficar mais simpática. Aquela cabeça branca ouvia rap.
A música vinha alta de dentro da casa. A velhinha não se sacolejava,
pelo contrário, ficava indiferente na cadeira de área, como se
nada auditivamente tivesse acontecendo. Seria ela surda para aguentar aquela
música nas alturas?
Passei, olhei, ouvi um trecho da música, comentei com a Japa alguma coisa.
Ela já saiu em defesa da velhinha:
- Que uma avó não faz pelo neto. Até ouve porcarias! -
e suspirou profundamente.
Continuei a caminhada com meu silêncio obsequioso, que discorda, mas respeita
os pensamentos diferentes. Será que havia neto lá dentro da casa?
Não seria a velhinha que gostava do novo ritmo? Ela não tinha
jeito de ser uma mulher que lutasse contra a velhice, não era daquelas
mulheres maduras que fazem tudo para ficarem mocinhas.
Como nessa sociedade pluralista, todas as loucuras são toleradas e louvadas,
continuei a caminhada como quem não se surpreende com mais nada, tudo
é possível.
Daí alguns dias, caminhei na mesma rua, nem me lembrava daquele quadro
exótico, quando lá estava a mulher na mesma cadeira, na mesma
posição, ouvindo rap. Só não sei dizer se era a
mesma música.
Será possível? Parecia uma cena de teatro bem ensaiada, sem caco,
ipsis litteris. Sacudi a cabeça, me belisquei, não era
sonho. A Japa queria parar para perguntar.
Não. Não valia a pena desvendar o mistério, sou cronista,
não sou jornalista. Não sei havia neto ou se tudo não passava
de coisa dela mesmo. Nem sei se a velhinha estava viva, não se mexia.
A vida sem mistério perde a poesia. Continuei a caminhada, não
queria perder a crônica.
(16.03.09)