Simão, pintor de parede de Araçatuba, que faz sua arte com todo
o capricho, vestiu luto diante da morte do ídolo Michael Jackson. Ele
(o pintor) jamais pode ser um dançarino, porque nasceu com problemas
nos pés. Para andar, se submeteu a várias cirurgias. E assim mesmo
possui algumas irregularidades nos passos. Ele se realiza no ídolo, que
é uma espécie de extensão de seu imaginário.
Simão misteriosamente sente o olhar de Michel Jackson, um olhar exclusivo,
como se o cantor fosse onipontente, onisciente, seu amigo íntimo. O cantor
nem sabe que o pintor de parede existe, mora em Araçatuba-SP, mas há
uma relação afetiva entre eles, nem que seja de mão única.
Lógico que Michel um dia dirigiu o seu pensamento a todos os fãs,
agradecendo o carinho de cada um, mas, com certeza, não chegou a ver
o rosto de Simão. O ídolo preenche um vazio no idolatrado.
Para ser ídolo, se faz necessário ser meio louco, porque somos
meio contraditórios, vivemos dualismos infinitos. Os certinhos nunca
serão idolatrados.
O artista norte-americano tinha o perfil de ídolo, fez e aprontou no
seu meio século de existência, além de revolucionar a sua
arte. Apesar de viver numa casa de vidro, uma espécie de Big Brother
Brasil, expondo até as suas taras, soube ser misterioso. Os deuses da
antiguidade eram assim.
O ídolo faz coisas diferentes, loucas. Atribuem a eles feitos inexplicáveis,
coisas extravagantes. Michel Jackson tem uma relação enorme. Dentre
elas, destaco algumas:
a) Ele encomendou retratos seus como Mona Lisa, Einstein, George Washington,
Abraham Lincoln e um ET.
b) Em novembro de 1993, no meio de todas aquelas acusações de
abuso sexual infantil, a Pepsi anunciou que havia cortado relações
com Michael Jackson, já que ele era seu garoto propaganda. Depois de
dois meses do anúncio da Pepsi, a Coca-Cola anunciou que suas vendas
cresceram em 20%.
c) O Twitter ficou fora do ar por 10 minutos após a notícia sobre
a internação e morte de Michael Jackson. A página caiu
em razão da quantidade de mensagens enviadas por seus usuários.
Não sei se sou apenas diferente ou um psicopata, não tenho ídolos.
Admiro alguns escritores, mas vejo neles vários defeitos, gosto de Mahatma
Gandhi. Vibro com os ensinamentos de Jesus, mas não disse tudo que lhe
atribuem. Às vezes penso que esse meu sentimento beira ao ateísmo.
Pode ser que eu tenha o desejo de ser ídolo, como não consegui,
desdenho a todos. Não deixa de ser uma reação reveladora
de minha frustração. Tudo é possível.
Por uma questão de sobrevivência, para não morrer junto
com Michel Jackson, Simão dirá que seu ídolo não
morreu. Assim fizeram os fãs de Elvis Presley. Não vão
criar a transcendência, mas dirão que ele se recolheu, cansou dessa
vida de exposição constante na vitrine da mídia.
(29.06.09)