Não foi por medo de avião, embora tenha caído muitos por
aí. Não fui. Afinal, é chique morrer em acidente aéreo,
dá status. Pois é, caro leitor, a estratificação
social se manifesta no velório, no cemitério e nas homenagens
póstumas. Duro mesmo é ser esmagado entre as ferragens de um ônibus,
um caminhão ou um carro mil nas rodovias da vida, pobre e no anonimato.
Nem sair na seção policial.
Fiquei com medo de enfrentar o terrorismo da mídia, nadar contra a maré,
pondo em risco meu único bem, que ponho a serviço da mais valia:
meu corpo. Ele me dá suporte à minha existência.
Em conversa com um médico, ele me disse que o percentual de morte por
causa da gripe suína é o mesmo da gripe corintiana (a comum).
Como a plebe ignara é facilmente teleguiada pelos corintianos, a notícia
ficou mais falada que a morte do Michel Jackson.
Não fui à Argentina. Valentia tem limites. Se enfrentar a gripe
suína já é temerário para um palmeirense, que tem
familiaridade com os chiqueiros, fazer isso aos 60 anos me deu calafrio. Quando
o ministro da Saúde aconselhou pela tevê que as pessoas sexagenárias
não deviam viajar, aquilo foi minha tábua de salvação.
Passei logo e-mail aos companheiros argentinos (afinal, caro leitor, nem todos
são nojentos como o Maradona), dizendo que o nosso ministro disse isso,
disse aquilo. E concluí: "Desisto de participar da Semana de Estudos
Linguísticos - Português Língua Estrangeira - do Instituto
de Enseñanza Superior en Lenguas Vivas 'Juan Ramón Fernández"'
Assim, cada pessoa que ia compor a mesa, como convidados, foi desistindo: Marcos
Bagno, Mário Alberto Perini, Carlos Alberto Faraco, este croniqueiro
e outros. Foi assim que o medo da gripe suína impediu que professores
de Português, argentinos, discutissem seus problemas do cotidiano escolar.
Como a Argentina recebe cada vez mais a influência da economia brasileira,
o ensino do português cresce por lá.
O professor de língua estrangeira é também um transmissor
dos valores culturais do país que fala aquela língua.
Temos por aqui a experiência com o inglês. Comemora-se o Dia das
Bruxas (Halloween) em 31 de outubro, porque os professores de Inglês insistem
nisso. Assim, o professor de língua estrangeira involuntariamente passa
a ser um agente cultural da língua que ensina.
Assim, este professor de Português ia falar o nosso idioma para uma platéia
argentina que teria o dever de me entender. Seria o imperador.
(04.07.09)