Como anda a sua casa? Muito bagunçada? Não responda, caro leitor.
Nem se justifique. Você é o que é, ponto! Não fique
querendo ser o que não é, se policiando. Ame seus defeitos, porque
por eles você faz a diferença. Esse negócio de que devia
ser assim, assado, só serve para nos deixar infelizes. Corrigir rumos,
mudar comportamentos é muito bom, desde que não altere nosso humor.
A minha casa é a minha cara. Por ela, mostro se valorizo o ter ou o ser,
se sou metódico, relaxado, liberal. Cada um deixa as impressões
digitais de seu espírito por onde passa. Não dá para se
esconder. Seria a mesma coisa de querer fazer uma obra de arte totalmente objetiva.
A personagem Macon Leary do livro (e depois filme) "O Turista Acidental"
organizava a sua despensa em ordem alfabética, por outro lado era uma
pessoa contida, escrevia livros de roteiros turísticos, mas detestava
viajar. Chegou à separação matrimonial, pois era um sujeito
de difícil convivência. Nesse caso, teria sido melhor se fosse
um bonachão desorganizado.
Às vezes, o meu cafofo criativo fica inabitável. Aquela bagunça
organizada onde encontro cada papelzinho. Basta alguém se meter a organizá-lo
para não achar mais nada. Numa folhinha, sugestão de crônica.
Um CD para gravar. Contas a pagar. Apesar de ter a gaveta da bagunça,
a mesa fica assim. Preciso escrever algo sobre tal livro cujo autor é
meu amigo, então, ele fica lá me acusando, me lembrando. Máquina
fotográfica para descarregar foto da coluna Por Trás das Letras,
cartões com senhas para movimentar conta bancária via Internet,
provas por corrigir.
Eu poderia ter um móvel com mil gavetas, um escritório amplo que
continuaria bagunçado. Esse espaço é meu, é minha
extensão. Criticá-lo é me agredir, não me aceitar
como sou. Como trabalhei em escritório desde garoto, tenho um certo senso
de organização. E esse jeito de ser vai também para o computador:
minhas pastas, separação dos arquivos por assunto. Ambiente de
trabalho virtual é bem semelhante ao real.
Filosofemos um pouco. Há aquela história que Roberto Shinyashiki
conta no livro "Carícias Essenciais": novo morador chega à
cidade, vai até a padaria da esquina e pergunta ao balconista como é
aquele lugar. A indagação lhe é devolvida: "Como era
a cidade onde morava?" O novo morador responde que era uma droga. "Esta
cidade é igualzinha àquela que você deixou" - respondeu
o balconista.
Noutro dia, apareceu outro novo morador e fez a mesma pergunta ao balconista.
A indagação também lhe é devolvida, mas a resposta
foi diferente: "Era ótima, mudei-me para cá porque fui transferido".
E o balconista repete as mesmas palavras: "Esta cidade é igualzinha
àquela que você deixou". Você, caro leitor, é
uma pessoa inteligente, retire por si a moral da história.
Não existe céu (lugar ideal), há apenas o real, que também
não é o inferno. Nem tento querer adivinhar como será a
vida noutra dimensão, mas me atrevo a dizer que ela começa a ser
construída aqui. A quem tem será acrescido, a quem não
tem será retirado. Já viajei demais, voltemos ao tema.
Então, caro leitor, não me desgasto. Faço concessões,
porque preciso conviver, interagir, também por respeito ao outro, aceitando-o
como é. De vez em quando, saio dos trilhos, fico com as rodas pra cima.
Desviram-me, continuo a viagem, porque o meu ambiente sou eu.