Na faculdade, cheguei a ler um livro sobre a necessidade da arte. Pego a esmo
na biblioteca da escola. Nem me lembro bem o autor, mas trazia o tema em linguagem
acadêmica. Só depois, com a maturidade, fui entender melhor o tema,
sob o prisma da realização pessoal.
Hoje, tenho certeza de que fazer arte é uma terapia, se livrar das tensões,
dar vazão à subjetividade. Cada um é mais gente exercendo
a sua veia artística. Já disseram, não sei se Dostoiévski,
que se não fosse escritor, seria um assassino.
Na verdade, a humanidade ganhou muito com as pessoas portadoras de transtornos,
quase todos nominados atualmente: transtorno disso, transtorno daquilo. Foram
tais criaturas que produziram as melhoras obras de arte ou se enveredaram pelo
mundo da ciência. Os medicamentos antidepressivos e congêneres limitam
a genialidade.
Assim foi nosso Machado de Assis. Ele buscou a sua realização
na literatura, pois era afro-brasileiro, de origem humilde, motivo de preconceito
forte em plena vigência da escravidão negra; gago e epilético.
Assim mesmo, tinha sorte com as mulheres.
Com a arte, ele superou todas as barreiras, exercendo sua ironia fina e exercendo
a hipocrisia como arma de sobrevivência na sociedade carioca.
Os escritores Lima Barreto e Cruz e Souza, também afro-brasileiros,
não tiveram a mesma sorte, pois optaram pelo enfrentamento, sucumbiram,
pois o inimigo era muito maior que eles. O negro intelectual da época
tinha como caminho natural o isolamento, pois não havia interlocutores
negros, com o mesmo nível cultural, e os escritores brancos eram ferrenhamente
racistas.
A elite carioca gostava tanto de Machado que o foi tornando branco nos retratos,
o fazendo esbelto, como se nada tivesse de negro. A exemplo do que houve com
a personagem Isaura, a escrava, de Bernardo Guimarães: esbranquiçada
pelo autor.
Sempre digo a meus alunos que Machado de Assis é exemplo de superação.
Viu na literatura a saída, o caminho para sua realização
e acreditou nela. Lia, escrevia, lia, escrevia, lia até o fim de sua
vida, 29 de setembro de 1908.
Nosso maior escritor, apesar de ser amplamente estudado nas universidades,
também de países estrangeiros, não tinha diploma, foi um
autodidata. Foi aprendendo nos jornais por onde trabalhou, certamente, tomando
orientações com amigos, participando de discussões, chegando
a traduzir obras estrangeiras para o português.
Foi tão bem-sucedido que hoje, 100 anos de sua morte, continua atual,
lido e suas obras são objetos de grandes descobertas literárias.