A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Saber viver

(Hélio Consolaro

Devia ter amado mais, ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais e até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer
Queria ter aceitado as pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração

(Epitáfio, Titãs)

Este texto não é literatura, talvez seja não ter o que dizer. Trata-se de depoimento de um simplório, um parvo, que será barrado na porta do céu.

Gostaria de que todos fossem galinhas d'angola, se sentissem pelo menos fracos para que fossem camelos. Ao rés do chão, sem degraus, sem essa de subir na vida, nem aquela de olhar por cima e dizer:

- Você sabe com quem está falando?

Assim a vida fica mais legal de ser vivida, descompromissada. Olhar do lado e perguntar ao próximo:

- Pecou muito hoje? Conte-me o mais cabeludo...

Deixar o moralismo apodrecendo nos porões. Desse negócio brega de classificar "do bem" e "do mal". Deus e o diabo moram em nós. A energia é una.Quando a gente se sente irmão, o perdão fica mais fácil. Nada de irmão mais velho, irmão mais rico. Apenas irmãos. Olhar o mendigo e lhe perguntar:

- De que está precisando, irmãozinho?

Como é bom viver sem estratégia, sem maquinações. Sorrir porque é gostoso...

- Venha pra cá , "moirmão"! Você mora no meu coração!

Engraçado que essas besteirinhas de bem-viver nos custem tanto. Como escreveu Rubem Alves, às vezes, a gente precisa passar pela panela quente de pipoca para desabrochar, estourar. Assim mesmo, alguns teimam em ser piruás. Quando nos tornamos pipocas estouradas, aqueles que não nos compreendem dizem:

- Aquela criatura endoidou!

Peco para sentir o gosto da carne, mostrar que sou humano como os demais, para não bater no peito e dizer que estou salvo. E Deus, bonachão, sem chicotes e instrumentos de tortura, diz:

- Farreia, Consa! Farreia...

Nem sei por que escrevo isso. Talvez queira ser um autor de literatura de autoajuda, ou seja, aliviar aqueles que se sentem os últimos, deixá-los mais confortáveis.

Viver é bom, basta descomplicar a vida. Descobrir isso, às vezes, custa... Se não descobriu ainda, caro leitor, vá tentando. Pode ser que o clarão ocorra tardiamente, no último minuto.

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