As catástrofes sempre existiram, os crimes hediondos também.
A diferença é que agora cadáveres fazem velórios
em nossas salas e o sangue respinga no sofá. José de Anchieta
escreveu uma carta em 1560, descrevendo uma tempestade: "...abalou as casas,
arrebatou os telhados e derrubou as matas..."
Sempre existiram tempestades, enchentes, excessivo calor, mas o planeta era
desabitado, o surgimento das grandes cidades é recente. Uma chuva que
poderia apenas derrubar árvores e encher rios, hoje, devido à
grande aglomeração urbana, provoca uma catástrofe.
Enchentes, deslizamentos, até os tremores fazem muitas vítimas
porque nós planejamos erroneamente nossas cidades, nossa vida foi tratar
a Terra como inimiga. Por especulação imobiliária, encaixotamos
rios, aterramos brejos (e até lagoas). Além disso, impermeabilizamos
o solo com asfalto nas ruas e cimentamos nossos quintais. Hoje estamos pagando
por erros históricos.
Na primeira metade do século 20, os araçatubenses não sabiam
o que ocorriam em Bauru e nem vice-versa. Talvez a notícia chegasse semanas
depois. Às vezes, atualmente, por causa desse envolvimento emocional
com o mundo, choramos a tragédia dos haitianos e chamamos de vagabundo
quem busca a sobrevivência dos semáforos de nossas esquinas. A
mídia reúne todas as desgraças do mundo e jogam-nas em
nossa casa via televisão. Precisamos saber trabalhar a repercussão
disso em nós, senão nos desesperamos.
Até ontem, as enchentes atingiam as pessoas desvalidas, hoje, as águas
começam a lamber as mansões. Condomínios enchem d' água
e pousadas chiques são soterradas por desmoronamentos.
Não considero os militantes ecológicos "ecochatos" e
nem acho que as guerras são necessárias, como forma de fazer uma
faxina na Terra. A questão ecológica, para garantia de nossa sobrevivência,
não pode ter cores ideológicas, porque ambos, ricos e pobres,
em nível de países ou de cidadãos, cometem crimes ecológicos.
Lógico que quem tem riqueza possui mais ferramentas para destruir a natureza.
Nós moramos no fundo do mar, um mar que no lugar de água tem ar.
Inventamos o avião, o foguete para sair desse fundo, ir à tona,
já que não temos barbatanas. Jogar-se de um avião num voo
livre é como mergulhar de um trampolim.
Isso significa que sujar a água ou o ar é um suicídio coletivo.
Seria o mesmo que o feto fazer cocô no útero de sua mãe.
Infelizmente, falta-nos essa visão de conjunto, que estamos todos interligados,
cada um é responsável por si e pelo outro. Preocupar-se com o
outro não é altruísmo, mas significa também cuidar
de mim mesmo.
Nosso corpo tem 70% de água, o planeta também (entre doce e salgada).
Mera coincidência? Ou fazemos parte de um todo? Se a água for poluída,
meu corpo também será poluído. Beber água de garrafão
ou de garrafa é uma solução paliativa. Daqui a pouco o
aquífero Guarani todinho estará contaminado.
Há saídas sim, desde que assumamos nossa pequenez e descubramos
que formamos uma rede. Estamos todos no mesmo barco nestes tempos de enchente.
(21.01.10)