Nem preciso olhar pela janela para buscar tema para crônica, meus amigos
me inspiram a toda hora. Escrever é fazer a leitura do mundo com um olhar
diferente.
Sabe aquele amigo dos tempos de faculdade, que morou na mesma república
e ainda faz parte de seu relacionamento na mesma cidade? Ainda tenho essa preciosidade
à busca da mão. Não vou citar o nome dele para lhe preservar
a identidade, chamá-lo-ei de amigo "D".
As pessoas mudam, mas a essência delas continua a mesma. Cabelos brancos
nada significam, além do envelhecimento. Esse meu amigo continua sossegado,
atrasa o pagamento de suas contas e sempre alguém do lado lhe dirigirá
a vida. Sossegado, lerdo, é o famoso pilha fraca.
Numa festa de confraternização, estávamos sentados à
mesma mesa. E ele apresentou alguns índices de senilidade a olhos vistos
que fizeram a turma rir.
Ele retirou do bolso da camisa um papelzinho e disse:
- Vou ler uma piada para vocês!
Todos fizeram aquela cara de curiosidade. Ele justificou:
- Ando esquecido.
Se poesia, declamada fica mais bonita; piada não prescinde da gesticulação,
da teatralização. Ler piada em voz alta para alguém ouvir
é uma catástrofe.
Não pôde fazer a leitura, caro leitor, havia esquecido os óculos.
As gargalhadas correram sonoramente o salão. Copia a piada à caneta
numa folhinha de papel, nem usou o copiar/colar do computador,depois se esquece
das lentes? Era demais...
Alguém lhe emprestou os óculos. E ele leu a piada. Ela ficou
sem graça. Sem contar que era velha, daquelas que havíamos escutado
na juventude.
Rimos do amigo "D", mas na verdade ríamos de nós mesmos,
não estávamos diferentes. Alguns se conservam mais, se cuidam,
lutam com a velhice; outros se entregam covardemente, mas os índices
da senilidade sempre se evidenciam.
Escrevo tudo isso, caro leitor, para dizer ao jovem que ninguém nasce
velho. Não parece, mas a sua avó foi uma linda mocinha, seu bisavô
(caso o tenha vivo) foi um bebê de colo.
Já disseram e escreveram tudo sobre a velhice, que ela é uma
merda, uma chatice, feia, horrorosa, etc. Com a idade avançada, chega
a sabedoria, justamente numa época que não precisamos mais dela.
Um velho maluco, quando perde o senso do ridículo e manda a sociedade
às favas, sua maluquice é mais intensa que a de um jovem. Como
escreveu Heitor Gomes, O Fescenino, velho apaixonado fica insuportável:
causa inveja a todos.
Escrever sobre a velhice rende páginas, só me nego a caluniar
o presente. Embora ainda busco, não sei o quê, mas busco, não
renegarei o ancião que sou.
(18.12.09)