Não vou escrever sobre passeatas, greves, centrais sindicais neste 1.º
de Maio, nem contarei a história de como surgiu tal comemoração.
Apenas reivindicarei a diminuição da jornada de trabalho.
Quero escrever sobre o ócio, a preguiça.
- Ai que preguiça! - dizia Macunaíma, herói sem caráter,
personagem do livro de Mário de Andrade.
Antes, no tempo dos reis, o trabalho era interpretado como um castigo. Inventaram
a história de que Adão e Eva pecaram, por isso o ser humano precisou
trabalhar. Nem todos, claro. Só trabalham os parvos.
Tanto que a palavra "trabalho" tem a sua origem no vocábulo
latino "tripaliu" - denominação de um instrumento de
tortura formado por três (tri) paus (paliu). Uma espécie de pau-de-arara.
Trabalhar era uma atividade dos subalternos que não podiam pagar impostos,
os desvalidos. Até hoje, são mais valorizadas as profissões
que não sujam a roupa com seu trabalho.
Com o advento do capitalismo, surgiu a ideologia de que o trabalho dignifica
o homem, embora houvesse tempo em que a jornada de trabalho de um assalariado
fosse de 16h. .
- Ai que saudade da escravidão! - dizia o operariado.
E nós acreditamos nessa dignificação do trabalho. Quem
não trabalha passou a ser chamado de vagabundo, e passamos a ouvir a
frase:
- Quem não trabalha, não vai comer!
Passamos a ter dias úteis, como se domingos e feriados fossem inúteis.
O Dia do Senhor passou a ser uma inutilidade, orar e rezar, como ir às
missas e cultos, era vagabundagem.
Este croniqueiro se considera um workholic. Esse estrangeirismo significa "obcecado
pelo trabalho, viciado em trabalho". Este foi o aleijão que a história
de trabalhar desde criança me deixou. Trabalhar muito cedo não
quebra ossos, mas deixa marcas profundas em nosso comportamento.
O workholic não consegue tirar férias. Três dias à
beira-mar me deixa de consciência pesada, me sinto um vagabundo. Fizeram-me
acreditar que vim ao mundo a trabalho.
Saber ficar à toa é uma arte, por isso admiro meu amigo Mirto
Fricote, aposentado precoce, que empurra os dias com a barriga. Ele se levanta
diariamente e se pergunta:
- Que tenho para fazer hoje?
E uma voz misteriosa responde:
- Nada!
O ócio é criativo, alimenta a indústria turística
e cultural. Sem dizer que a preguiça é motivação
do avanço tecnológico. Se o ser humano não procurasse a
lei do menor esforço, nem a roda teria sido inventada.
Então, caro leitor, dispense o seu patrão. Esse cara só
pensa em trabalho! Para os outros, claro...
(30.4.10)