Para quem é jovem, discutir a convocação de atletas para
a seleção brasileira de futebol pode ser o maior barato, mas para
quem passou por isso várias vezes, tudo é repeteco.
Em 1958, com 10 anos de idade, nem fiquei sabendo que o Brasil fora campeão.
Estava preocupado em caçar rolinhas com meu estilingue. Na escola, tinha
a maior dificuldade em escrever Kubitschek.
Em 1962, morando na cidade, Araçatuba, conheci os jogadores pelo álbum
de figurinhas, e o jogo era ouvido ao pé do rádio com antenas
instaladas em dois bambus. Os cidadãos, nem sei se as pessoas eram isso,
não publicavam cartas nos jornais nem davam opinião por telefone,
e-mail, MSN ou twitter. O pensamento corrente era que a pobreza era vontade
divina e era melhor pingar do que secar.
Em 1970, já meio subversivo, achava futebol alienação.
Enquanto os gols eram marcados no México, o pau comia nos cárceres
clandestinos. Em 1982, usei a Copa do Mundo para derrotar a ditadura militar
nas eleições.
Em 2002, Felipão não convocou Romário, sofreu a maior
pressão, e o Brasil conseguiu ser o pentacampeão. O gaúcho
conseguiu calar seus críticos. Só por raiva, Scolari, senhor de
si, não quis ser mais o técnico, deixou novamente o selecionado
brasileiro nas mãos de seus antecessores: nova frustração.
Agora, outro gaúcho cabeça-dura dirige tecnicamente os jogadores
brasileiros. E a imprensa desportiva grita isso, grita aquilo. Cada um leva
a vida como pode, ganha o seu dinheiro com aquilo que sabe fazer, até
que a morte nos separe.
Além disso, muita gente ganha a vida no grito e ainda afirma que faz
isso com o suor de seu rosto. E nós, meros torcedores, nos alinhamos
com essa ou aquela opinião, como gado na estrada. Assim é a vida
política e comercial, sempre somos usados, cabe-nos apenas escolher quem
vai nos usar.
Do outro lado, há a vida de jogador. Anula tudo para só correr
atrás de uma bola, que pode se transformar num bolo de dinheiro. Surge
o pai-patrão, que vive à custa do filho, investe tudo no moleque
como forma de ascensão social. Mas não há os pais que investem
no estudo dos filhos para sair da miséria? Não foi isso que ocorreu
com Zezé Di Camargo e Luciano pela via da música? Então...
Só muda cenário e personagens, a essência é a mesma.
Mas nem todos os jogadores têm a sorte e o talento de Neymar, Ganso e
outros. Milhares deles ganham caraminguás no Tigrão, Penapolense,
Linense, restando a alegria de ter pelo menos tentado. Apesar disso, bem melhor
que ser apenas um salário-mínimo.
A vida é bem isso. Cada vez mais entendo os mendigos, bêbados
e suicidas. Você, caro leitor, nasce, cresce, morre e ninguém lhe
dá satisfações.
Em 2014, a Copa do Mundo será no Brasil. Disfarçaremos o tédio.
Não se contamine com meu niilismo, caro leitor, como dizia minha avó,
ando mesmo meio encachorrado.
(13.5.10)