Em sala de aula, explicando o tema da redação, ecologia, passei
a mão pela cabeça e percebi uma área devastada no cocuruto,
uma tonsura. Fiz uma pausa na explicação, para surpresa dos alunos.
Mal sabiam que seu professor filosofava, e até se lembrava de um verso
de Fernando Pessoa: "Nem sei bem se sou eu quem em mim sente".
Era um momento que o eu esgrimia com o universo, a criatura questionava seu
criador. Dizem que nosso mal é se dar muita importância. Ninguém
é educado para ser o tijolo de uma construção, todos querem
ser o telhado, embora sejamos mesmo sempre a peça menor da construção.
Então, na hora em que descobrimos a nossa insignificância, em vez
de crescermos na humildade, a depressão nos invade.
A proximidade da finitude é a apoteose desse sentimento. Nele passamos
a entender a vida, mas ela acaba, e nem sabemos direito se continua ou não,
como prometeram nas homilias.
Nem me atrevi a explicar àquelas pessoinhas em início de trajetória
pensamentos tão escabrosos. Para elas, o mundo começava a existir
no momento do nascimento, agora que aprendiam aulas de História, se ligavam
à marcha da humanidade. A vida era uma estrada longa, interminável,
que nunca ia acabar. Ledo engano, mas viver o engano faz parte do show.
O pseudomilitante do Greenpeace que esgoelava pensamentos ecológicos
a jovens imberbes, a título de passar-lhes argumentos para a montagem
de um texto dissertativo, queria mesmo era poetar. Quem o professor tanto defendia
o atacava sorrateiramente via espelho. E a natureza era cruel, sempre agia friamente,
sem nenhuma compaixão, como se eu fosse um detalhe sem importância,
um parafuso desgastado de uma máquina.
De repente, a natureza me arrebata como uma peça que já cumpriu
a sua função e meu túmulo será visitado em Dia de
Finados. Confesso, caro leitor, que não sou o primeiro a ter tais pensamentos.
Sei também que tento ser original, mas tenho consciência de que
os outros gritam em mim. O plágio só não é encontrado
no texto n.º 1, mas ninguém o conhece, talvez tenha ficado com o
Criador no Éden. Ou eram rabiscos de macacos bonobos. Então vivemos
de um plagiar o outro.
Como sou um sujeito que esperneia, que quer construir sua própria imortalidade,
nem que seja numa cidade de interior, deixo livros, crônicas, e textos
esparramados por jornais e internet. Talvez redigirei meu próprio epitáfio.
Assim, hoje, percorro as ruas da cidade dos mortos. Um mundo virtual que teima
em ficar em forma de arremedo. E novamente verso de Fernando Pessoa me vem:
"Eu serei tal qual pareço em mim?"
(02.11.07)