O leitor Duílio Anderline me mandou slides com a evolução
da música popular e lírica, como veio perdendo seu romantismo,
se tornando erótica, até com sexo explícito.
Acabou o romantismo? Aquela curtição meio platônica no
início para depois, bem depois, chegar nos finalmentes desapareceu? Como
diz Jacques Lacan: desejar é mais gostoso do que realizar.
Nélson Rodrigues escreveu também que quem ama nunca chega à
felicidade, porque o romântico tradicional vive de saudades, seu objetivo
não é buscar a felicidade, ele gosta mesmo da frustração,
por isso é magro e tem um aspecto crapuloso.
Se não bastasse ter o ser humano pisado a Lua, os cientistas, excessivamente
racionais, andam até dizendo por aí que a paixão é
o cio humano, que o romantismo é uma doença. Como se tenta explicar
tudo, até o mistério, sabe lá Deus!
Deve ser porque o romântico tradicional idealiza o ser amado. Na hora
do vamos ver, do dia-a-dia, o príncipe volta a ser sapo; e a princesa
retorna a Gata Borralheira. Daí a paixão perder o carmim durante
o casamento, de papel passado ou não. Nesses tempos atuais, apenas os
não românticos conseguem completar bodas de prata.
Se na década de 30, os casais dançavam sob o som de Pixinguinha:
Tu és, divina e graciosa/ Estátua majestosa do amor/ Por Deus
esculturada/ E formada com ardor/ Da alma da mais linda flor.
Hoje, nos bailes da vida, cantam assim: Vai! Dá tapinha na bundinha,
vai!/ Que eu sou sua cachorrinha, vai!/ Fico muito assanhada,/ se eu pedir você
me dá?!/ Lapada na rachada!
As pessoas de personalidade romântica continuam nascendo, mas exercem
um romantismo com data de validade: o "carpe diem", porque o sempre
também acaba, pois é bom enquanto dura.
Não existe romântico tradicional e romântico moderno, há
apenas o romântico. Os termos essenciais continuam, mudaram os termos
acessórios, as circunstâncias temporais: o "sempre" por
"enquanto dure".
Então, o Consa opta por cantar com Caetano Veloso: Me dá um
beijo então/ Aperta a minha mão/ Tolice é viver a vida
assim/ Sem aventura/ Deixa ser pelo coração / Se é loucura
então melhor não ter razão.
(19.11.06)