Dos olhos de Deus, feridos de tanto brilho, deslizou uma lágrima. Dessa água, escapou uma mulher. Aquela era a primeira mulher.
Fui ao tratamento dentário. Na sala de espera, estavam algumas dentistas
da casa querendo encontrar horário para um cliente naquele jogo de planilha.
O único ser do gênero masculino da roda era Fernando Calestini.
Pá de cá, pá de lá, nada ficou resolvido.
Já com a boca aberta para o mundo, antes da picada da anestesia, como
macho mais velho, dei-lhe um conselho:
- Você na roda só ia atrapalhar. Quando acontece isso comigo, esses
impasses, que elas resolvam por mim, depois aceito a decisão, fica mais
fácil.
Ele pensou, pensou. Cutucou, cutucou minha boca. E respondeu laconicamente:
- Você tem razão.
Este croniqueiro desistiu de compreender as mulheres. Não as desprezo
com isso, apenas evito conflitos desnecessários. Se querem decidir por
mim, que façam, obedecer é mais fácil. Assim economizo
energia.
Não digo que homens são do planeta Marte; e mulheres, de Vênus.
Não chego a esse exagero, mas admito que são bem diferentes em
tudo, alguém precisa ceder, nesse caso, sou eu. Afinal, a idade serve
para alguma coisa: arrefecer a teimosia.
Ao ler o livro "O último vôo do flamingo", do escritor
moçambicano Mia Couto, encontrei uma epígrafe no capítulo
7 que vale toda a obra. O trecho escolhido para iniciá-lo é um
diálogo entre as personagens Massimo Risi, o italiano, e Ana Deusqueira,
prostituta da longínqua Tizanga:
- Tenho saudades de minha casa lá na Itália.
- Também eu gostava de ter um lugarzinho meu, onde pudesse chegar e me
aconchegar.
- Não tem, Ana?
- Não tenho? Não temos, todas nós, as mulheres.
- Como não?
- Vocês, homens, vêm para casa. Nós somos a casa.
As mulheres reconhecem os homens por qualquer parte do corpo. Há uma
passagem no livro em que aparecem soldados da ONU explodidos por minas (capacetes
azuis), apenas sobrando inteiro o pênis. Ana Deusqueira é chamada
para "identificar o todo pela parte", só ela podia fazer isso.
Parece uma cena de mau gosto, humor negro, mas, na verdade, tem um grande sentido
metafórico.
Então, caro leitor, faça um exercício de memória,
tente lembrar que mulheres abandonaram o lar. Geralmente, quem é posto
pra fora é o marido, o companheiro. E a casa é o coração
de uma mulher, cujo piso é fofo e o som ambiente é suave e de
enlevo.
Diziam os homens românticos que em mulher não se bate nem com uma
flor. O homem que é homem devora as mulheres, querem entrar nelas, desejam voltar pra casa.
(31.8.08)