A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Adeus, Jorge...

(José Carlos Brandão)

Tanta gente para morrer e tinha de ser logo você. A vida é madrasta mesmo. Os melhores vão primeiro, diz o adágio popular. Ou foi um escritor quem disse? Ou eu vi num filme? Tanto faz. A frase é boa como um adágio. A bruxa danada vai levando os melhores de nós.

A gente gostava tanto de você. Se você não estivesse fechado naquele caixão todo nos trinques, iria ver como as crianças choravam, e os velhos e as mocinhas delicadas e os homens duros. A gente não tinha vergonha de chorar. Você era muito mais do que um parente.

Não dizem que os parentes são os dentes? Ninguém tinha medo de seus dentes, por falar nisso. Você tinha dentes para roer um bom osso, isso tinha. Mas não ia mostrando os dentes para a gente, não. Se chegava de manso, como quem é de casa. Como quem não queria nada, se encostava num canto.

Logo vinha uma alma bondosa e lhe dava o melhor osso. E não era alma bondosa nada. A gente brigava para atender você. Todo mundo queria ter a graça de servir você. É dando que se recebe, já diziam os políticos. Mas a gente não queria receber nada, não. Queria era a felicidade de dar.

Os políticos são uma gente tapada mesmo. Dar para receber, onde se viu? Não sabem como é bom isto: a felicidade de dar. E você nem agradecia, nem precisava. Quem dá esperando agradecimento não merece a felicidade de dar. E o nosso coração batia mais forte no peito, crescia, pulava.

Você não escolhia festa para comparecer, não. Estava em todas. Se havia duas, três ou mais num dia, você dava o ar da sua graça um pouco em cada uma. Não importava se era festa de rico ou de pobre, o seu coração não tinha desses enjoamentos. Amava a todos da mesma forma.

Porque só podia ser uma forma de amor, a sua dedicação. O rabo entre as pernas, as orelhas pendidas num gesto de humildade, você se entregava à bobagem do nosso amor. Porque o amor tem algo de muito bobo em sua grandeza e pequenice. Amor é bicho instruído, dizia o poeta.

E você não comparecia só a festas, não. Estava em todos os enterros também. Mas o enterro não é uma forma de festa? As festas da morte, dizia outro poeta.

Há enterros engraçados, há velórios divertidos, contam-se histórias, contam-se piadas, vê-se desfilar toda a vida do morto.

A morte perde a sua cara feia, num bom velório.

E num enterro concorrido como o seu, mais de mil pessoas da nossa cidadezinha, a morte não teve vez. Foi uma festa da vida. O prefeito mandou a Banda Municipal tocar. O nosso coração tocava mais alto dentro do peito.

Não é todo dia que morre um cachorro como você, Jorge.

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