A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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O homem e a enxada - lembrando o quadro de Milliet

(José Carlos Brandão)

O homem vê a orquídea no alto da árvore brilhando ao sol e se põe de joelhos para contemplá-la. Trabalhou a terra e recebe como única recompensa o cansaço. O corpo está moído. Tem terra nas gretas da pele. O homem sabe do seu valor, somente ele sabe. O suor que lhe escorre pela testa e lhe empana vista tem gosto de terra.

Está apoiado no cabo da enxada e tem vontade de chorar. Sabe que suas lágrimas terão gosto de terra. Está com a boca seca e é como se tivesse passado o dia comendo terra. A enxada é amiga. Ela lhe dá o sustento. Mas cada vez mais o seu sustento tem gosto de fome. A lâmina brilha ao sol que se põe e é algo de belo. O homem está de joelhos apoiado ao cabo da enxada.

No alto da peroba a orquídea brilha. O sol a envolve e ela repousa como num nicho sagrado. Ela é algo de sagrado brilhando na altura. Confundida com o sol. As
suas pétalas são as pétalas do sol. O homem tem a visão turvada. Tem terra nos olhos. Mas adivinha a beleza da orquídea. A beleza só existe adivinhada. Não existe para ser compreendida. Simplesmente existe. Um elemento da natureza. Ela se oferece para nós quando quer e quando estamos com o espírito aberto para recebê-la. E é ela que abre o nosso espírito.

Uma cacimba quieta olha o homem. É verde de samambaias e convida a sede. O homem sabe que a água existe para matar a sede. Mansamente é um alívio que desce por todo o corpo. Mansamente olha o homem e não lhe reflete o rosto feio de terra arada. São os sulcos onde se planta a velhice e se colhe a dor. Mas esses sulcos não apagam a pureza do homem.

A cacimba não reflete a orquídea tão alta erguida no seu altar. A orquídea é a beleza e por isso é sagrada. O homem está de joelhos e adora. Não sabe que adora, mas está de joelhos com a alma quieta. Conhece a pureza da água e da orquídea e da peroba. Conhece a sua pureza de homem de terra. Conheceu, sem saber, a forma da beleza. É um homem abatido de cansaço, mas feliz com a enxada na mão como um cetro.

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