O homem vê a orquídea no alto da árvore brilhando ao sol
e se põe de joelhos para contemplá-la. Trabalhou a terra e recebe
como única recompensa o cansaço. O corpo está moído.
Tem terra nas gretas da pele. O homem sabe do seu valor, somente ele sabe. O
suor que lhe escorre pela testa e lhe empana vista tem gosto de terra.
Está apoiado no cabo da enxada e tem vontade de chorar. Sabe que suas
lágrimas terão gosto de terra. Está com a boca seca e é
como se tivesse passado o dia comendo terra. A enxada é amiga. Ela lhe
dá o sustento. Mas cada vez mais o seu sustento tem gosto de fome. A
lâmina brilha ao sol que se põe e é algo de belo. O homem
está de joelhos apoiado ao cabo da enxada.
No alto da peroba a orquídea brilha. O sol a envolve e ela repousa como
num nicho sagrado. Ela é algo de sagrado brilhando na altura. Confundida
com o sol. As
suas pétalas são as pétalas do sol. O homem tem a visão
turvada. Tem terra nos olhos. Mas adivinha a beleza da orquídea. A beleza
só existe adivinhada. Não existe para ser compreendida. Simplesmente
existe. Um elemento da natureza. Ela se oferece para nós quando quer
e quando estamos com o espírito aberto para recebê-la. E é
ela que abre o nosso espírito.
Uma cacimba quieta olha o homem. É verde de samambaias e convida a sede.
O homem sabe que a água existe para matar a sede. Mansamente é
um alívio que desce por todo o corpo. Mansamente olha o homem e não
lhe reflete o rosto feio de terra arada. São os sulcos onde se planta
a velhice e se colhe a dor. Mas esses sulcos não apagam a pureza do homem.
A cacimba não reflete a orquídea tão alta erguida no seu
altar. A orquídea é a beleza e por isso é sagrada. O homem
está de joelhos e adora. Não sabe que adora, mas está de
joelhos com a alma quieta. Conhece a pureza da água e da orquídea
e da peroba. Conhece a sua pureza de homem de terra. Conheceu, sem saber, a
forma da beleza. É um homem abatido de cansaço, mas feliz com
a enxada na mão como um cetro.