O único problema filosófico verdadeiramente sério é
o suicídio, diz Albert Camus. Julgar se a vida merece ou não ser
vivida é responder a uma questão fundamental da filosofia. Pode
ser. E pode ser que muitos encontraram a resposta negativa e tiveram a coragem
de acabar com seus dias e noites sem sentido. Outros se acovardaram, o que é
mais comum e mesmo louvável, humano. Outros muitos não encontram
resposta nenhuma e se entregam ao desespero ou depressão ou angústia
ou ao que quer que seja que não podem suportar e sucumbem, porque o homem
é fraco. Suicidam-se por não terem coragem para se suicidar. Outros
ainda encontraram a resposta positiva, mas a fraqueza humana sempre é
mais forte e numa curva do caminho encontraram também o desespero ou
depressão ou angústia ou o que quer que seja que não puderam
suportar e sucumbiram.
Por que um homem se mata? Este deve ser um problema mais humano do que filosófico.
Não basta julgar, responder, decidir. Nunca se saberá se a decisão
foi acertada. Julgar é um processo intelectual, responder implica em
ação pura e somente após concluída essa ação
se pode dizer que foi tomada uma decisão. E a fraqueza humana é
tal que a maioria de nossas ações não se explicam. Muitas
vezes ou sempre agimos não por uma resposta filosófica, mas porque
é de nossa natureza agir de tal ou qual forma.
"Se te queres matar, por que não te queres matar?" - pergunta
Fernando Pessoa e responde: "Se ousasse matar-me, também me mataria."
E parece que ousar é tudo, mas o certo é que muita gente se mata
por não ousar viver.
Cioran justificou o suicídio a vida inteira. A vida não vale a
pena e a dor de ser vivida. Parece que só porque foi o filósofo
da amargura, da decomposição, viveu mais de oitenta anos.
Tudo é muito bonito e interessante intelectualmente, mas a vida e a morte
não são literatura. A arte responde o que a filosofia não
pode responder, mas sempre sobram perguntas sem resposta. São interrogações
no vazio e nem o vazio de depois da vida é uma resposta. A religião
pode preencher esse vazio como a arte e a filosofia podem, mas humanamente resta
o caos, que nada preenche.
Se há transcendência todos os problemas estão resolvidos,
se há Deus morrem todos os motivos para se questionar a vida, mas muitas
vezes ou sempre agimos segundo a nossa natureza, ou contra a nossa natureza.