A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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O SUICÍDIO

(José Carlos Brandão)

O único problema filosófico verdadeiramente sério é o suicídio, diz Albert Camus. Julgar se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma questão fundamental da filosofia. Pode ser. E pode ser que muitos encontraram a resposta negativa e tiveram a coragem de acabar com seus dias e noites sem sentido. Outros se acovardaram, o que é mais comum e mesmo louvável, humano. Outros muitos não encontram resposta nenhuma e se entregam ao desespero ou depressão ou angústia ou ao que quer que seja que não podem suportar e sucumbem, porque o homem é fraco. Suicidam-se por não terem coragem para se suicidar. Outros ainda encontraram a resposta positiva, mas a fraqueza humana sempre é mais forte e numa curva do caminho encontraram também o desespero ou depressão ou angústia ou o que quer que seja que não puderam suportar e sucumbiram.

Por que um homem se mata? Este deve ser um problema mais humano do que filosófico. Não basta julgar, responder, decidir. Nunca se saberá se a decisão foi acertada. Julgar é um processo intelectual, responder implica em ação pura e somente após concluída essa ação se pode dizer que foi tomada uma decisão. E a fraqueza humana é tal que a maioria de nossas ações não se explicam. Muitas vezes ou sempre agimos não por uma resposta filosófica, mas porque é de nossa natureza agir de tal ou qual forma.

"Se te queres matar, por que não te queres matar?" - pergunta Fernando Pessoa e responde: "Se ousasse matar-me, também me mataria." E parece que ousar é tudo, mas o certo é que muita gente se mata por não ousar viver.

Cioran justificou o suicídio a vida inteira. A vida não vale a pena e a dor de ser vivida. Parece que só porque foi o filósofo da amargura, da decomposição, viveu mais de oitenta anos.

Tudo é muito bonito e interessante intelectualmente, mas a vida e a morte não são literatura. A arte responde o que a filosofia não pode responder, mas sempre sobram perguntas sem resposta. São interrogações no vazio e nem o vazio de depois da vida é uma resposta. A religião pode preencher esse vazio como a arte e a filosofia podem, mas humanamente resta o caos, que nada preenche.

Se há transcendência todos os problemas estão resolvidos, se há Deus morrem todos os motivos para se questionar a vida, mas muitas vezes ou sempre agimos segundo a nossa natureza, ou contra a nossa natureza.

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