Bem dizem que quem olha as estrelas não vê os buracos no chão.
Pois o homem olhava as estrelas, era uma noite linda, eram tantas estrelas que
parecia que iam pingar do céu, eram pedras preciosas penduradas no manto
azul do céu, e brilhavam, e piscavam, e o homem caiu no buraco.
Era um poço de uns oito metros, seco, inútil, mal tampado por umas
tábuas velhas; alguém precisou das tábuas para acender o
fogão da cozinha, era alguém muito pobre, com cinco filhos pequenos,
que tinham fome, e conseguiu uns dois copos de arroz para cozinhar, e o buraco
do poço ficou tapado apenas com um pouco de capim e mato, e o homem caiu
no buraco.
Foi se segurando nas beiradas do poço, foi se agarrando aos torrões
de terra, que desbarrancavam com o seu peso; houve mesmo uma hora em que conseguiu
se estender de uma parede a outra do poço, os pés de um lado e os
braços do outro, e então foi pior, caiu como um sapo, de barriga
para baixo; mas já estava quase no fundo, e quase não se machucou,
pelo menos se apalpava, se apalpava, e não conseguia achar nenhum osso
quebrado; dolorido, lá isso estava.
Olhou o céu, e o céu continuava lindo; achou que continuava lindo,
coalhado de estrelas; jurava que via uma e outra estrela brilhando por entre
as macegas de capim; escarmentou o capim, essa praga excomungada. Logo viu que
não tinha sentido olhar o céu numa hora dessas; não, não
se lembrou de amaldiçoar a hora em que ficou olhando para o céu
em lugar de olhar o chão onde pisava; nem ficou apavorado, pensando que
poderia estar perdido para todo o sempre, enterrado antes da hora, e sem nem
estar bem coberto, com a terra devida mente colocada por cima; logo viu que
tinha que chamar ajuda, e gritou, gritou até não poder mais.
Já se viu que o homem tinha bebido um pouco, estava o seu tanto alegre,
e, apesar da queda ter curado uma parte da sua bebedeira, ainda continuava alegre.
Só quando a garganta doeu de tanto gritar, só quando a garganta
secou, e não havia água nenhuma para refrescar o seu desespero,
foi que ele se lembrou de ficar desesperado.
Certamente não foi a sabedoria dos bêbados, talvez a inconsciência
dos néscios, o conformismo dos pobres de espírito e de pobreza
mesmo, mas o homem desistiu logo de ficar desesperado. Chorou só um pouquinho,
depois ergueu os olhos de novo para o céu, e sorriu. Não acontecia
nada na sua vida, pensou, e agora estava acontecendo. E ergueu os braços
ao céu, e deu graças ao Senhor, pela vida e pela aventura que
a vida afinal nos concede.
Encostou-se na parede do poço e foi deslizando devagar; sentou-se na
terra fofa que tinha desbarrancado há pouco, pôs a cabeça
entre as mãos, e sorriu. Era a segunda ou terceira vez que tinha sorrido;
sorrir é bom, pensou; e foi baixando o cansaço, da queda, do susto,
do álcool, e adormeceu.
Acordou muitas horas depois, não sabia quantas, mas devia ser muito
tempo; estava deitado, todo encolhido no fundo do poço; gostou, sentia-se
bem. Não tinha bebido tanto assim, como se pode imaginar; lembrava-se
do que tinha acontecido, tinha consciência do perigo que corria, afinal
poderia não ser achado mais, ou poderiam demorar tempo demais para achá-lo,
mas não se importava.
Deus provê, disse; Deus dá o frio conforme o cobertor, disse,
sem saber bem o que estava dizendo; Deus ajuda a quem cedo madruga, disse, e
se corrigiu: Deus ajuda a quem se ajuda, e resolveu se ajudar, e gritou. Não
havia outra coisa a fazer, senão gritar. O lugar não era muito
freqüentado; às vezes alguém cortava caminho por ali; quem
sabe alguém cortasse agora; e ele gritava.
Gritou até não poder mais; gritou o dia inteiro, e a noite também;
só parou de gritar quando não pôde mais. Subir pelas paredes
era impossível; isso ele já havia tentado. Só havia o recurso
do grito.
E havia a sede, uma sede dos diabos; machucou as unhas tentando cavar, alguma
água ainda poderia haver, mas o poço estava seco como uma pedra
seca. Foi quando chorou de fato; estou perdido, concluiu, agora não tem
jeito; e as lágrimas jorraram.