A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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O HOMEM NO BURACO

(José Carlos Brandão)

Bem dizem que quem olha as estrelas não vê os buracos no chão. Pois o homem olhava as estrelas, era uma noite linda, eram tantas estrelas que parecia que iam pingar do céu, eram pedras preciosas penduradas no manto azul do céu, e brilhavam, e piscavam, e o homem caiu no buraco.

Era um poço de uns oito metros, seco, inútil, mal tampado por umas tábuas velhas; alguém precisou das tábuas para acender o fogão da cozinha, era alguém muito pobre, com cinco filhos pequenos, que tinham fome, e conseguiu uns dois copos de arroz para cozinhar, e o buraco do poço ficou tapado apenas com um pouco de capim e mato, e o homem caiu no buraco.

Foi se segurando nas beiradas do poço, foi se agarrando aos torrões de terra, que desbarrancavam com o seu peso; houve mesmo uma hora em que conseguiu se estender de uma parede a outra do poço, os pés de um lado e os braços do outro, e então foi pior, caiu como um sapo, de barriga para baixo; mas já estava quase no fundo, e quase não se machucou, pelo menos se apalpava, se apalpava, e não conseguia achar nenhum osso quebrado; dolorido, lá isso estava. Olhou o céu, e o céu continuava lindo; achou que continuava lindo, coalhado de estrelas; jurava que via uma e outra estrela brilhando por entre as macegas de capim; escarmentou o capim, essa praga excomungada. Logo viu que não tinha sentido olhar o céu numa hora dessas; não, não se lembrou de amaldiçoar a hora em que ficou olhando para o céu em lugar de olhar o chão onde pisava; nem ficou apavorado, pensando que poderia estar perdido para todo o sempre, enterrado antes da hora, e sem nem estar bem coberto, com a terra devida mente colocada por cima; logo viu que tinha que chamar ajuda, e gritou, gritou até não poder mais.

Já se viu que o homem tinha bebido um pouco, estava o seu tanto alegre, e, apesar da queda ter curado uma parte da sua bebedeira, ainda continuava alegre. Só quando a garganta doeu de tanto gritar, só quando a garganta secou, e não havia água nenhuma para refrescar o seu desespero, foi que ele se lembrou de ficar desesperado.

Certamente não foi a sabedoria dos bêbados, talvez a inconsciência dos néscios, o conformismo dos pobres de espírito e de pobreza mesmo, mas o homem desistiu logo de ficar desesperado. Chorou só um pouquinho, depois ergueu os olhos de novo para o céu, e sorriu. Não acontecia nada na sua vida, pensou, e agora estava acontecendo. E ergueu os braços ao céu, e deu graças ao Senhor, pela vida e pela aventura que a vida afinal nos concede.

Encostou-se na parede do poço e foi deslizando devagar; sentou-se na terra fofa que tinha desbarrancado há pouco, pôs a cabeça entre as mãos, e sorriu. Era a segunda ou terceira vez que tinha sorrido; sorrir é bom, pensou; e foi baixando o cansaço, da queda, do susto, do álcool, e adormeceu.

Acordou muitas horas depois, não sabia quantas, mas devia ser muito tempo; estava deitado, todo encolhido no fundo do poço; gostou, sentia-se bem. Não tinha bebido tanto assim, como se pode imaginar; lembrava-se do que tinha acontecido, tinha consciência do perigo que corria, afinal poderia não ser achado mais, ou poderiam demorar tempo demais para achá-lo, mas não se importava.

Deus provê, disse; Deus dá o frio conforme o cobertor, disse, sem saber bem o que estava dizendo; Deus ajuda a quem cedo madruga, disse, e se corrigiu: Deus ajuda a quem se ajuda, e resolveu se ajudar, e gritou. Não havia outra coisa a fazer, senão gritar. O lugar não era muito freqüentado; às vezes alguém cortava caminho por ali; quem sabe alguém cortasse agora; e ele gritava.

Gritou até não poder mais; gritou o dia inteiro, e a noite também; só parou de gritar quando não pôde mais. Subir pelas paredes era impossível; isso ele já havia tentado. Só havia o recurso do grito.

E havia a sede, uma sede dos diabos; machucou as unhas tentando cavar, alguma água ainda poderia haver, mas o poço estava seco como uma pedra seca. Foi quando chorou de fato; estou perdido, concluiu, agora não tem jeito; e as lágrimas jorraram.

Acabou adormecendo, talvez de fraqueza, certo que de cansaço, e de uma tristeza muito grande.

No dia seguinte foi a mesma coisa, os mesmos gritos; não, não os mesmos, já eram gritos desesperados; e já desesperava de gritar, não adiantava, ia morrer, e pronto; mas gritava. E veio a noite; e ele gritava.

Percebia-se que era noite; o poço era escuro, mas alguma claridade penetrava entre as moitas de capim, de dia. De noite, tentava adivinhar as estrelas; julgava ver um brilho, pedras preciosas que cintilavam entre o capim, ou nas paredes do poço.

Estava há dois dias ali; pensou em comer terra; tentou chupar uns torrões de barro, mas eles se quebravam de tão secos.

Não tinha mais jeito, ia morrer, pensou. Mas no terceiro dia choveu, choveu pouquinho, mas choveu. O homem gritava de felicidade, lambia as paredes do poço, e gritava. E eram felizes os seus gritos de socorro.

Anoitecia. Um casal de namorados passava, e estavam apressados. O moço loiro ouviu os gritos de socorro, a moça morena ouviu também, mas nenhum dos dois acreditou; poderiam estar enganados: eram gritos de muito longe, e eram gritos felizes.

Passaram; voltaram. Procuraram na noite deserta; noitinha, tempo de chuva, já fazia escuro. Quem gritava? Uns gritos tão fracos, parecia que vinham de dentro da terra. E eram estranhos, esses gritos; alegres, estranhamente alegres.

Por fim, a moça chamou o pai, chamou o tio, e procuraram, e acharam o poço, e dentro do poço o homem, exultando de felicidade.

O homem que olhou o céu; era ainda tempo de chuva, mas uma e outra estrelinha se adivinhava por entre as nuvens; o homem olhava e sorria; tinha cara de bobo olhando para o alto, e para baixo, e sorrindo.

O homem tinha todas as razões do mundo para sorrir; para olhar para o céu, e para a terra, e estar feliz.

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