Não estou fazendo crítica literária, muito menos de teatro.
Sou apenas um cara à beira da bela idade chamada Senectude registrando
as suas memórias - os acontecimentos que testemunhei ou estou testemunhando
(um dia, amanhã, muito breve, serão memórias). Muitas vezes
idéias soltas, comentários de leituras, sob a forma de crônicas,
uma forma não comprometida, muito livre, e para não durar. Esta
vida não vai durar. Um dia vai cair o pano. Um dia não começará
um novo ato desta peça que representamos. Somos atores fracos ou fracas
personagens?
"Nesse meio tempo, vamos conversar com calma, já que a gente é
incapaz de calar a boca. É verdade, somos inexauríveis."
É isso, tenho nas mãos "Esperando Godot", de Beckett
(Abril Cultural, São Paulo, 1976). A vida é absurda? Os dois vagabundos
de Beckett não são absurdos, mas um nosso retrato, algo distorcido,
imagem de um espelho em que não nos queremos ver. Dois malucos? "Todos
nascemos malucos. Alguns permanecem assim." Será que não
vemos os malucos que somos? Seria uma justificativa, a nossa maluquice? Justificativa
de quê?
Como somos inexauríveis, vamos falando, vamos ouvindo. "Todas a
vozes mortas. Fazem um ruído de asas, de folhas, de areia. De folhas.
Falam todas ao mesmo tempo. Cada uma para si. Talvez sussurram, murmuram, cochicham.
Fazem um ruído de plumas, de folhas, de cinzas. De folhas." Falamos
demais, esquecemos de ouvir a nossa própria voz, esquecemo-nos de que
o que ouvimos é a nossa própria voz. Ruídos. Pensamos que
é poesia. Ou o ruído que quebra a poesia. O ruído quebra
ou constrói a poesia? Isso fica para os teóricos. Um vaso quebrado
no chão, como um deus em pedaços, não é poesia?
Os cacos falam. Quando não falam, encantam. Deus é a água
derramada, que existe além dos cacos. Deus são os cacos e a água.
O ateu Beckett fala em Deus. Não é tão ateu assim. Tem
que provar que Deus é cruel. Não está em questão
a existência de Deus, mas a sua justiça - como a entenderíamos
se é de Deus? Se nós, homens, somos tão complexos? Deus
não nos fez anjos, mas esta complexidade de matéria e espírito,
loucura e ternura, razão e estupefação? Quereríamos
ser anjos? Queremos ser esta mixoieira que somos. Para o bem ou para o mal,
para a salvação ou a danação. Vladimir e Estragon
se interrogam sobre Deus e a salvação de suas pobres almas. Não
acreditam nem em Deus nem nas almas - mas por que então se interrogam?
"Você acha que Deus está me vendo?" A pergunta é
infantil, mas é a mesma que nos fazemos. A resposta parece mais ingênua:
"Você tem que fechar os olhos." Parece, mas é a mesma
proposta que Descartes se fez: fechar os olhos e ver a alma - e chegou à
demonstração de que Deus existe. Se não existisse, Beckett
não estaria preocupado com a salvação: "Um dos ladrões
foi salvo. É uma porcentagem razoável." Apesar da brincadeira,
ou por isso mesmo: quando não temos respostas, levamos na brincadeira.
"E se a gente se arrependesse? De quê? De ter nascido." Novamente
a brincadeira, santa válvula de escape. Mas não se pode negar
a preocupação com um além-existência, a alma e Deus.
Como o pensamento humano é muito limitado, ou o pensamento sem Deus
isola-se em si mesmo, num beco sem saída, resta-nos a banalidade das
pequenas coisas. "Existir dói, mas por que não se abotoar?
Não se deve ser desatento com as pequenas coisas." Como não
temos respostas, dizemos que tudo é relativo. Como se fosse uma desculpa
razoável. "Gente é um bicho muito ignorante." Acreditamos
mesmo que somos assim ignorantes? Que não somos capazes de chegar a solução
nenhuma?
A nossa tábua de salvação é a poesia. Mas às
vezes essa tábua é muito penosa, como uma cruz ou uma forca: "Que
tal se a gente se enforcasse? É um modo de se masturbar. A gente goza?
Completamente. E onde cai, nascem mandrágoras. É por isso que
elas gritam quando a gente as colhe."
"Esperando Godot" é pleno de humor, mas o riso é proibido.
"Você me faria rir, se não fosse proibido." A vida é
trágica. "Eu vou me acostumando ao esterco à medida que piso
nele." Sempre à espera de uma impossível resposta. À
espera de Deus. Godot seria um pequeno Deus? Seria um Deus chamado acaso? É
esse acaso que dirige o diálogo dos dois elefantes (estou lembrando o
"Cemitério de Elefantes", de Dalton Trevisan). E se Godot não
vier? Vejam que não se discute essa hipótese. Godot vem. Deus
vem.
É a mesma idéia do poema de Kavafis: "E se os bárbaros
não chegarem?" Estamos acostumados ao esterco, mas "o essencial
não muda nunca". Talvez os bárbaros cheguem. Deus, no final,
chegará. Não podemos, nós, chegar à inércia.
Como Estragon e Vladimir, um dizendo para o outro: "Então, vamos?"
E o outro respondendo, como se fosse inevitável: "Vamos." E
os dois não saem do lugar. A única ação é
o pano que cai.