O urubu desceu voando devagar, bem à esquerda do meu prédio,
como se fosse aterrissar no quintal da casa ao lado. Mas não. Logo voltou
para o meu lado, veio planando suave bem junto à varanda onde eu estava.
Deu uma parada no ar, ergueu o pescoço, como a se equilibrar, ou como
se quisesse exibir-se. Como se me olhasse, se exibindo - Eu estou aqui, este
terreno é meu também, não se esqueça de mim.
Sim, o urubu mora neste prédio, assim como eu. Melhor do que eu: mora
na cobertura, com todo o espaço disponível só para ele,
para se refestelar à vontade, ora na poltrona, ora no sofá, ora
numa rede à sombra, ou ao sol, bronzeando-se nababescamente. Ele e a
distinta esposa - onde andará? Ah, toda esposa é distinta, mesmo
as desses cavalheiros de negro.
E eu me esquecera deles, sim senhor. Com estes tempos de chuva, ventos, às
vezes tempestades, sei lá, andavam meio sumidos. Talvez a sua distinta
senhora esteja chocando uma ninhada de ovos, pretinhos como só. Estou
brincando, mas ovos de urubu bem que podiam ser pretinhos. Talvez já
tenham nascido os filhotinhos, feinhos como diabinhos encolhidos em suas capas
pretas.
Que eles achariam lindos, ora se não! Se há papais-corujas, por
que não haveria papais urubus a achar os seus rebentos horrorozinhos
as coisinhas mais lindas do mundo? Estava tão orgulhoso o meu urubu,
hoje, que bem deveria ter aprontado alguma, como se ter tornado papai, que é
a melhor coisa do mundo para se aprontar. E de vez em quando se encontra um
nenê recém-nascido jogado no lixo, num terreno baldio, numa lagoa
suja. Aposto que um papai ou uma mamãe-urubu não abandonaria os
seus desgraçadinhos à própria sorte!
Estou falando, falando. Não que eu goste de urubus, longe disso. Mas,
se não são seres humanos como nós, são seres com
todo o direito à vida, ouviram? São feios, inspiram um certo,
ou um grande nojo, são agourentos... Arre! Mas com todo o direito à
vida, ouviram?
Não gosto deles, não. Aos fundos do prédio, à esquerda,
gruda-se uma mancha branca no chão, mais de metro de diâmetro,
como se fosse de cal, ou de tinta branca. É de cocô de urubu! Uma
nojeira, meu amigo. Não é de virar o estômago? Não,
parece tinta branca. É uma trabalheira para limpar, as faxineiras reclamam,
com toda razão. Mas, daí, a querer acabar com a raça dos
coitados! Repito: eles têm todo o direito à vida. Ponto.
Uma vez dei uma pedrada de estilingue bem na testa de um urubu. Eu era um menino
de uns nove ou dez anos e tinha toda a malvadeza própria das crianças.
Sei, as crianças são uns anjos a passear nesta vida, mas que sabem
ser cruéis, lá isso sabem. Por um ato inteiramente gratuito, consegui
acertar de cheio na cabeça de um urubu. O bicho caiu de costas, e se
debateu, e pulava no chão feito doido, feito bêbado. Ele me olhava
com um olhar de mau. Eu juro que ele me olhava com um olhar de mau. Derramava-se
do bico um caldo negro - o caldo negro do ódio. Corri, fugi, escondi-me
dentro de casa. Deus do céu, aquela coisa feia queria avançar
sobre mim, queria matar-me, queria despejar toda a baba do seu ódio sobre
mim. Escafedi-me, não sei o fim da história. É provável
que o urubu tenha se salvado, tenha conseguido voar para uma cerca, dali para
uma árvore, depois para o céu azul - o céu, também,
dos urubus.
Eu era um moleque endiabrado, com ganas de matar, estrangular quem era mais
fraco do que eu - já que não poderia esganar alguém mais
forte. Hoje sou um homem que usa a razão, que deveria usar muito bem
a razão, que deveria achar indigna uma ação como essa -
mesmo uma ação como essa, contra um ser nojento, escabroso só.
Hoje eu sou um homem, que conhece o que é razão e o que é
a razão da poesia - e sei bem por que elegi o urubu como o meu tema.
Terminou na última sexta-feira, em Paris, o Painel Intergovernamental
de Mudança do Clima, que constatou mais uma vez que o homem é
o mais selvagem dos predadores do planeta. Falar mal de um urubu?! Nem de um
urubu, nem de um rato, nem qualquer animal pestilento - todos eles vivem em
equilíbrio, a morte de um é o bem do outro, tudo que fazem é
em prol desse equilíbrio maravilhoso. Nós, como se fôssemos
moleques malvados, esquentamos a nossa casa, este planeta, nós a transformamos
em uma estufa - com o único objetivo de acabar com a vida de quem está
dentro dela.
Falar mal de um urubu?! Não, hoje não. É lindo o vôo
negro dos urubus - essa hipálage aérea, que navega diante dos
olhos. Essa figura de linguagem que eu julgava genial criação
do grande Graciliano Ramos, e depois li em Ramón de Valle-Inclán,
que escreve bem antes seu "Tirano Banderas". Não tira o mérito
de Graciliano, que não o teria lido, nem é demérito para
quem não é urubu - mas sabe que o negro é lindo, e que
é lindo o vôo negro dos urubus indiferente ao espírito de
destruição do homem. De mau agouro? Ave de rapina que se alimenta
de carne podre? Lindo vôo negro muito acima da indiferença humana,
como um sinal de alerta - ainda é tempo, ainda é tempo.
(05-02-07)