Alta noite, a minha mulher me chama: "Tem alguma coisa no quarto!"
Eu me viro de lado, sei que tem um monte de coisas no quarto. Um tempo depois,
ela ainda está preocupada: "Você não ouviu? Um barulho
de asas. Um guincho metálico." O meu anjo, com as asas dobradas,
está dormindo. Quanto a guincho metálico, não sei, há
muito tempo não fala comigo. Mas ela insiste, acende a luz: "Olha
ali no cantinho da parede. É um morcego!" No canto da parede, atrás
de um mancebo com algumas roupas dependuradas, encolhido de medo, de pavor,
lá estava o morcego. Feio como só um morcego sabe ser. Escandalosamente
feio.
E lá estava eu, às quatro da madrugada, com uma vassoura e uma
pá de lixo na mão, caçando um morcego. Tentei pegá-lo
apertando-o com a vassoura, ele soltou um grito pavorosamente doído.
Era o tal guincho fino, ardido. Metálico, é a palavra. Mas dolorido,
como o gemido de uma criancinha apavorada. Como um bichinho acuado, que é
o que ele era. Tirei o mancebo da frente, aproximei-me bem, enfiei de supetão
a pá por baixo e a vassoura por cima do morcego. Prendi-o bem, dirigi-me
à janela de antemão aberta, soltei-o na imensidão da noite.
Os guinchos se perderam no infinito escuro.
Lembrei-me logo do meu amigo Paulo, que foi acordado com a filha aos gritos.
A coitada acordou com um morcego mexendo-lhe na cabeça. Imagine a cena:
você não ficaria horrorizado? E não estamos no mato: moramos
em edifícios muito bons, quase no centro da cidade. Nem acreditei, logo
que me contou: um morcego, no quinto andar? Agora cá estou eu com um
morcego no sétimo andar! Estou acostumado a ver morcego voando na rua,
comendo bolotas nas árvores, mas dentro de um apartamento é novidade.
A minha mulher, uma boa alma, preocupou-se com o pobrezinho do morcego. Eu não
teria quebrado o bichinho apertando-o com a vassoura? Que ele chorou doído,
lá isso chorou. Sei que morcego se derruba com vara de pesca, não
com vassoura. Eu fui um menino da roça, em casa apareciam morcegos e
era uma diversão vibrar as varas de pesca para desnortear os bichinhos.
Pois é, esses bichinhos estão bem fora do seu elemento, o mato.
Culpa de quem? Gostaria de culpar o Tuga. O prefeito leva a culpa de tudo quanto
acontece, por que não levar a culpa da proliferação de
morcegos? Estive fazendo curso de Direção Defensiva, para renovação
da CNH, e um dos participantes propôs: "Por que não tira o
prefeito?" É o culpado dos buracos e de tudo quanto atrapalha o
trânsito, pelo menos é o nosso bode expiatório. O Brasil
tem o Lula, nós temos o Tuga. Alguém tem que levar a culpa por
tudo de ruim que nos acontece.
Não pude deixar de lembrar-me do morcego Augusto dos Anjos. Ele me ensinou
a escrever poesia. É o autor do mais importante livro de poesia de nossa
literatura, o "Eu". Saíram mais de 30 edições
do livrão feio, de capa amarelada com as duas letronas da palavra EU
saltando aos olhos. De um grande mau gosto. Os poemas de mau gosto. Uma linguagem
pernóstica e temas eivados de termos escabrosos, arrancados a gancho
da ciência pretensiosa dos fins do século retrasado. Pernóstica,
bem ao gosto dos brasileiros - nós todos - metidos a besta. E esse mau
gosto que escorre pelas gretas dos poemas. Mas grandes poemas, fortes, um soco
no estômago, uma faca na barriga. Como mexeu com a sensibilidade acomodada
da "belle époque" enjoadinha do começo do século
passado! As imagens concretas, que se podiam pegar com as mãos. Mesmo
com nojo, mas que se podiam tocar de tão concretas.
Ainda hoje estive relendo uma página ou outra de Saint-John Perse e,
muito por acaso, li: "Mas os morcegos recortam a noite branda com breves
gritos." Saint-John Perse é o poeta do equilíbrio, da exaltação
profunda da vida contemplada do alto das montanhas azuis. Os morcegos também
fazem parte da vida a ser contemplada, como ele a contempla.