Sempre me lembro do livro do poeta português José Gomes Ferreira:
"Viver sempre também cansa". É uma grande ironia: ninguém
quer morrer, mas, e se vivêssemos para sempre? Você gostaria de
viver mais de cem anos, cada vez mais debilitado, mais inútil, sem vontade,
cada vez mais sem nenhuma sensibilidade, um morto-vivo? No entanto, você
não quer morrer. Você se esquece de que "viver sempre também
cansa".
Eça de Queirós tem um conto em que aprimora seu instrumento de
trabalho, a língua, embelezando-a, dando-lhe matizes de pureza - como
diríamos? - eterna. Chama-se "A Perfeição" e
é chatíssimo de ler. Dizemos: "É a beleza pela beleza,
pô! Onde é que está a humanidade disso aí?"
Está aí, a carga humana no que se escreve é o segredo.
Pode ser qualquer reles subliteratura, se tiver a presença do humano,
com sua cota de dor, de miséria, de sangue, será uma obra que
valha a pena ler.
"A Perfeição" é a história de Ulisses
depois da guerra de Tróia, quando já ficou oito anos prisioneiro
dos amores de Calipso, angustiado porque não pode voltar para o filho
Telêmaco e a sua Penélope que tece e destece a teia, esperando-o.
Mercúrio, mensageiro dos deuses, trouxe a ordem para libertá-lo.
Calipso não se conforma: nem se não o esperasse a mulher e o filho
ansiosos, ele não deixaria tanta paz, doçura, abundância
e beleza eterna?
É quando, depois de umas vinte páginas cansativas, o conto recebe
a sua carga de sangue para animá-lo. Ulisses responde que já não
suporta tanta doçura, paz e beleza imortal. Há oito anos as folhas
das árvores não amarelecem e caem. O céu não se
carregou de nuvens escuras, nem a borrasca fustigou a sua choupana. As flores
são as mesmas que admirou na primeira manhã. Chega a odiar os
lírios e as gaivotas por sua harmonia branca eterna. Ulisses tem saudade
da morte.
Há oito anos não vê um tronco podre ou a carcaça
de um bicho coberto de moscas. Há oito anos terríveis não
vê o trabalho, o esforço, a luta e o sofrimento. Tem fome de ver
um corpo arfando sob um fardo, bois puxando o arado sob o sol, homens que se
injuriam ao se encontrar, uma mãe que chora, um aleijado mendigando.
Há oito anos que não olha para uma sepultura. Está cansado
de tanta serenidade sublime. Ulisses morre com saudade da morte.
Não quer ficar para toda a imortalidade na ilha perfeita, nos braços
perfeitos de Calipso. O supremo mal está na perfeição,
diz Ulisses. E fendeu o mar na sua jangada frágil, fugiu feliz para o
trabalho, a tormenta e a miséria humana. A eternidade foi feita para
os deuses. O homem quer a felicidade da condição humana, com toda
a sua carga de miséria e dor. Somos feitos para sentir a transformação
do nosso corpo, da natureza, até mesmo das idéias e da arte com
que damos uma forma à nossa sensibilidade das coisas e dos seres.
Lembra-me que, há uns trinta anos, eu não conseguia ler "Memórias
de Adriano", de Marguerite Yourcenar. Começava a ler, empacava.
Recomeçava, empacava de novo. Era perfeito demais. Adriano pairava, posto
num plano superior, de equilíbrio, serenidade, de perfeição,
em suma. Como se fosse um deus. Os imperadores romanos consideravam-se deuses,
Adriano falava de si mesmo como um ser perfeito, um deus. Eu não estava
lendo um livro de memórias, mas um romance, que deve mostrar toda a complexidade
humana. O mal está na perfeição, diz Ulisses. O homem sente
a deterioração do próprio corpo, quanto é breve
e efêmero este arcabouço que habitamos.
O eterno a Deus pertence. O homem anseia por uma parcela dessa eternidade,
teme pavorosamente o efêmero de tudo que existe, quer a permanência
e não o pó, a sombra, o nada a que somos votados. Tem uma alma,
que não perece. Não é apenas matéria putrescível,
mas espírito com algo do sublime, do eterno que a Deus pertence.
Estranho falar em saudade da morte. Vamos nos cansar de viver? Vamos desejar
a morte? Queremos viver gloriosamente a nossa condição humana,
finita. Nada é para sempre: costumo dizer que sempre é
muito tempo. Queremos o que permanece de tudo que se acaba. O resíduo
além do finito. Se o corpo é matéria finita, o espírito
independe dessa conjunção corporal para existir. Sentir a vida
com todos os sentidos, depois dar adeus ao corpo, que fica. A própria
saudade da morte - o conhecimento de nossa finitude - revela a grandeza da miséria
humana, que leva o homem à certeza de que o espírito permanece.