O menino abre a porta de casa.
Nem sabe que aquela porta ficará gravada na sua mão, nos seus
olhos, na sua alma. Aquela porta ficará fazendo parte do seu ser. Não
será preciso que se lembre das ranhuras na madeira, da consistência
da madeira, do peso, da cor e forma da porta. Ela não existirá
em sua memória.
Mas a sua memória será incompleta, mutilada, baça, poço
seco, sem aquela porta e tantas coisas úteis e inúteis que se
apagaram no tempo.
A memória tem imaginação.
A memória é criativa.
A memória cria o mundo do menino perdido no tempo. Uma mancha na porta.
Um borrão. Desenho de um país impossível onde pode imaginar
ruas e casas e fábricas e igrejas.
A palavra fábrica não existe ainda, mas está presente
nesse país de sonho. Países não existem ainda, mas são
inventados na memória da porta.
A porta, aliás, não tem fechadura. A imaginação
inventa uma taramela e uma tranca. A porta não existe para isolar, fechar,
proteger, prender. O menino não precisa saber para que a porta existe.
Existe para sair por ela.
Existe para ver o dia.
O sol dá nos olhos quando se abre a porta. Dói. Cega. É
tanta a claridade que não vemos.
O menino vê, sob a porta, nos vãos da porta, a luz. Réstias
de luz. Suave claridade deixando adivinhar a beleza do dia.
A palavra beleza não existe ainda. O menino vê o mundo sempre
novo e sempre o mesmo: isto é a beleza. Não é preciso saber.
Não saber é a beleza.
As árvores. Os pássaros nas árvores. Uma árvore
em especial, a figueira. Os coqueiros. As paineiras. Os espinhos e as flores
nas paineiras. As flores de cor lilás, delicadas, entre os espinhos.
A paina ainda não nascida e já pairando no céu, em forma
de nuvens.
As casas de joão-de-barro entre os espinhos das paineiras. Protegidas,
sofridas. O menino não pensa isso. A sua memória pensa.
A memória sabe. Nada do que passou, passou. Tudo permanece. O menino
aprende lições de eterno, entre as coisas efêmeras. As coisas
morrem. No instante em que nascem, já estão mortas. Mas são
eternas.
As coisas não precisam nem existir para serem eternas.
O sol no fundo do poço da memória brilha sempre. Ilumina o que
existe e o que não existe. Cria, do não-ser, o ser.
É como se fosse Deus.
Deus é o mágico por excelência. Criou a memória,
para pôr dentro dela o mundo. Criou a memória, para que ela criasse
o mundo.
A memória esquece. Se lembrasse tudo, explodiria. Por isso seleciona
o que deve ser lembrado. Pouquíssima coisa. O essencial.
O mais a memória cria. O mundo todo que conhecemos é criado pela
memória. O mundo é o que fica do que passa. É o que a memória
cria.
O menino vê os cafezais. O rio ao longe, no meio do mato. Os pastos rodeando
o mato. Os bois, as vacas, os bezerros, os cavalos.
A voz do pai domina tudo.
O pai é como Deus.
A voz do pai, como a voz de Deus, cria tudo que existe. Depois a imaginação
faz o resto. Ilumina tudo que deve ser iluminado no poço verde da memória.
Às vezes é preciso dizer muito pouco. Faça-se, disse Deus.
Eu digo que Deus paira como um pai sobre tudo que existe.
A memória do menino criou o mundo. Deus criou a memória. Silentemente,
para que não caiam as pétalas das rosas e as asas das borboletas,
o menino articula as sílabas da memória da Criação.