A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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A onça, a vaca e o chinês

(José Carlos Brandão)

Uma onça entrou num hospital, em Naviraí, MS. Já imaginou você num hospital andando no corredor e, de repente, vê ao seu lado uma onça? Ou está deitado na cama, meio entubado, e percebe uma mão estranha acariciando a sua mão? Foi, no entanto, um fato sem maiores conseqüências: a onça foi dopada e conduzida ao devido lugar para onde uma onça deve ser conduzida.

Resta a pergunta: por que a onça foi parar no hospital? Diria: esperta, estava doente e foi se tratar. Mas parece que não estava doente. Desequilíbrio ecológico? Pode ser. Hoje mesmo sai uma outra notícia: uma vaca estava passeando numa grande avenida de São Paulo. Certamente não era o melhor lugar para uma vaca. Mas estava lá, bela e formosa. Era mansa, cordata, deixou-se capturar sem dificuldades. O dono é que não ficará manso nem cordato quando lhe for comunicada a polpuda multa que terá de pagar. Também, onde se viu oferecer tal pasto a uma vaca?

A outra notícia é a do chinês, mas eu não acabei de falar da onça ainda. Acontece que eu estava relendo o conto "O Espelho", de Guimarães Rosa... Primeiro estranhei: Caramba, isto não parece conto. Não me lembrava do conto/não-conto, e eu com certeza li "Primeiras Estórias", e reli, babando de admiração. Era quando Rosa chegou ao ápice da sua arte, concluí. Mas agora não me lembrava desse "O Espelho". Muito diferente, eram outras águas. Tanto que murmurei lá comigo parece que pela primeira vez: Nossa, Rosa é fascinado pelo espelho como Borges. Os dois já morreram, todo mundo sabe. Continuam fascinados lá na eternidade, que fascinava aos dois. Mas que tem "O Espelho" com a onça? Tem que antes de chegar ao final, quando o personagem não se vê no espelho e põe em dúvida a própria existência, antes se vê na forma de um animal, especificamente de uma onça.

Já imaginou você se olhar num espelho e ver do outro lado, não a sua cara feia, mas uma onça? E você lhe mostra os dentes, a imagem lhe devolve o sorriso com um bruto rugido. A sua imagem parece querer devorá-lo. Salta para fora do espelho, incorpora-se a você, e você caminha pelo quarto com passos suaves de felino. Quem é você? Quem, pois é, quem somos nós? Somos? E eis que, súbito, eu decifrara o conto de G. Rosa. Ele não se oferecia para ser decifrado, decifra-me ou devoro-te. Mas não se oferecia para passar indiferente. Provocava. Já o fato de ser diferente, não parecer conto. O que é um conto? O que o autor quer que seja conto, como na blague da personagem de Mário de Andrade? Guimarães Rosa levava muito a sério o gênero "conto", que para ele tinha umas 50 ou 70, talvez muito mais páginas. Num deles extrapolou, quando viu estava escrevendo "Grande Sertão: Veredas". Por isso nem chamou de "contos" as páginas que reuniu em "Primeiras Estórias" e nos livros seguintes. Achou melhor usar um termo mais vago como "estórias". Criou-se a lenda: história é o real, estória é o inventado. Lenda pura, o que Rosa quis foi preservar a pureza do conto. O conto como ele o entendia. Entre as "estórias" podia muito bem entrar "O Espelho", embora tenha entrado também a sua obra-prima "A Terceira Margem do Rio".

Mas eu disse que decifrara "O Espelho". É um conto (uma estória!) de trama simples e complexa: a identidade humana. Simples, porque todos a temos, e complexa, porque não a compreendemos, abarca o universo e abarca o nada. Abarca a nossa condição. Outro conto, aliás, de "Primeiras Estórias" é "Nada e a Nossa Condição". A grandeza e a miséria dessa entidade, "nossa condição" me lembra "A Condição Humana", de André Malraux: o aniquilamento pelo fogo, a purificação pelo fogo depois de passar pelo supremo sofrimento - gratuito, em nome de uma causa em que nem se acreditava.

Depois disto tudo, volto ao rés do chão, à história do chinês. Que não estava ao rés do chão: pairava nas alturas, nas alturas de seus 2,36 m. Como pode ser um homem tão alto assim? Virou curiosidade turística, tanto quanto o Cristo Redentor, onde foi visto com admiração e espanto. Como a onça e a vaca, o chinês também era um ser fora do seu habitat. E vejam só: Mudei muito de assunto? Continuo falando da identidade humana, quem somos, de onde viemos, para onde vamos - o que é mais do que perquirir a realidade da minha face: é responder às questões essenciais da filosofia. Por Deus, para onde me levaram uma onça, uma vaca e um chinês!

(uma crônica de 2006)

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