Estou em Ubatuba, na praia do Tenório, dentro d'água, contemplando
o céu, o mar e as montanhas. Não se vê o alto-mar, estou
cercado de montanhas por todos os lados; por isso as águas são
verdes: as montanhas cobertas de árvores verdes refletem-se nelas. Há
uma tal paz, o céu muito azul, as nuvens esparsas muitos brancas, e o
vai-e-vem das ondas me levando, me embalando: tudo é um apelo à
paz.
Não vejo o mar se encontrando com o céu, mas sei que um e outro
são infinitos. Lembro, involuntariamente, juro que foi involuntariamente,
lembro Pascal e o silêncio eterno dos espaços infinitos que o aterrorizavam.
Estou fascinado por essa grandeza imensurável que chamamos de infinito.
Estou maravilhado por esse tempo fora do tempo, esse não-tempo, que chamamos
de eterno.
Caio de joelhos, no fundo da água clara, límpida, diante da
solidão cósmica - que cai sobre mim. A ciência não
encontrou notícia de vida em nenhum planeta, dentre todos os planetas
que giram em torno das estrelas. Tenho todo o cosmo sobre os ombros. Não
pesa mais que a mão de uma criança ou a mão de Deus, que
não têm peso, mas eu sucumbo.
Onde o fim do universo? Seria infinito? Existe um tempo que não pode
ser medido, a que chamamos eternidade? Esse seria o tempo de Deus. O tempo dos
homens, nós o medimos. Arbitrariamente, mas o medimos. Somente Deus,
que não se submete à matéria, está livre da escravidão
do tempo. Nós, homens limitados, não podendo conhecer o eterno,
pensamos no infinito: parece mais fácil de ser concebido.
Cheguei a falar, acima, do mar como infinito. É a sensação
que temos. Faz parte do globo terrestre em que vivemos, é limitado como
nós somos limitados. Mas o universo, onde os seus limites? Mais longe
vai a imaginação, em busca da última estrela, infinitamente
distante, mais perto chega da eternidade. A maior distância que podemos
conceber, a ilimitados anos-luz de tudo que podemos medir, só pode se
chamar se chamar eternidade.
A beleza do mar e do sol, da areia, das águas claras, verdes à
distância, com as montanhas verdes dentro, sem que eu o perceba, traz-me
à mente a idéia de Deus. A prova de que Deus existe. Se eu posso
conceber uma noção de eternidade, tenho que conceber a noção
de Deus, senhor dessa eternidade.
Como suporto a solidão cósmica sobre os ombros? A mão
de uma criança ou a mão de Deus. O silêncio eterno dos abismos
do universo? O espírito de Deus paira sobre os espaços infinitos.
A ciência me prova que a última estrela repousa na mão de
Deus. Antes da explosão inicial, havia o sopro de Deus.
O meu corpo vai e vem sobre as águas calmas, tão perto da terra
e tão perto do céu, leve como uma pluma, leve como o espírito
que sopra sobre ele.