A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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O gavião

(José Carlos Brandão)

Vi o gavião aqui perto de casa, ao lado da Igreja Santa Teresinha. Elegante, imponente, nobre. Comia uma lagarta na calçada. Olhou-me com desdém e continuou o seu trabalho aplicado.

A lagarta era muito grande e gorda. Era verde e remexia-se displicente. Um belo almoço para o gavião? Nem tanto. Não parecia tão satisfeito. Se fosse um pássaro a vítima das suas garras, se houvesse mais carne, suculenta, a disputar; se talvez provasse o prazer da luta. Mas uma reles lagarta!

No entanto o gavião continua o seu trabalho. O cimento, as pedras da calçada o atrapalham? Está sob uma árvore frondosa, aconchegante; por que não voa para o alto dos galhos? Olha-me com desprezo, de cima, embora ainda no chão; o olhar de um gavião é sempre mais alto do que nós.

É um animal nobre. Viveu em ducados, condados e principados. É um rei, um gavião-real mesmo quando não ostenta esse título. É belo e sabe que impressiona pela sua beleza; é temido pelas garras mortais; impressiona pela beleza.

Mas o gavião na calçada apenas come uma lagarta. Estou quase repetindo Rimbaud quando escrevia algo como: "A aranha no cercado apenas come violetas." É a minha imagem mágica: O gavião come a lagarta. Circunspecto, com aplicação, altivo.

A altivez do gavião e a altivez da lagarta. Duas naturezas selvagens. O gavião me ignora. A lagarta ignora o gavião, que a devora. A altivez selvagem da vida.

Eu me aproximo, estou a dois passos. Ele não tem medo, eu é que devo temê-lo. Abre as asas, afronta-me. Dou um passo para trás, ele voa para um galho baixo da árvore, depois para outro e outro, sempre com a lagarta no bico. Olha-me, glorioso, um rei no seu trono

Segura a lagarta com as garras e grita. Seria um grito de cólera, de angústia pura? Segurava nas garras a lagarta como se fosse uma serpente viva. Depois, soltou um grito aflito. E enfim, o silêncio.

O silêncio do gavião não tem nenhum mistério. É a voz da natureza que se calça em sua garganta. Vira-me as costas, com indiferença calculada, e afasta-se, solene.

Isto foi há uns meses. O gavião veio com o verão, talvez ainda na primavera. Nunca mais o vi. Mas encontrei uma pena dourada na minha varanda: ele não me esquecera, não me abandonou. Ainda há pouco, quando me sentei para escrever, ouvi o seu grito na frente da janela.

O gavião sobrevoa a cidade como se fosse a sua floresta, supervisiona a partilha do mundo. Imagino-o dominando o seu novo reino.

Se fosse Manoel de Barros, falaria da menina que apareceu grávida de um gavião. A menina que me olhava com uma coroa brilhando nos olhos, e desapareceu de repente.

Lembraria que o gavião foi feito para a solidão, longe da família, do bando, separado para sempre das campinas e da floresta? Quanto eu saiba, talvez fosse feliz.

Sinto que estou olhando para um anjo. O gavião é um guardião da paz. O gavião ao amanhecer, com o orvalho das estrelas nas asas.

No alto, entre as nuvens e os aviões, planava o gavião. Deixa passar o vento e some-se. Do gavião, resta o grito. Adivinho no grito a sua presença, as garras tensas, o olhar de desdém, soberano.

Nas garras do gavião, no seu grito vermelho, a morte se desdobra. Tomo a forma de um gavião e sobrevôo o mundo, com as garras doendo de desejo.

(03-04-07)

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