Vi o gavião aqui perto de casa, ao lado da Igreja Santa Teresinha. Elegante,
imponente, nobre. Comia uma lagarta na calçada. Olhou-me com desdém
e continuou o seu trabalho aplicado.
A lagarta era muito grande e gorda. Era verde e remexia-se displicente. Um
belo almoço para o gavião? Nem tanto. Não parecia tão
satisfeito. Se fosse um pássaro a vítima das suas garras, se houvesse
mais carne, suculenta, a disputar; se talvez provasse o prazer da luta. Mas
uma reles lagarta!
No entanto o gavião continua o seu trabalho. O cimento, as pedras da
calçada o atrapalham? Está sob uma árvore frondosa, aconchegante;
por que não voa para o alto dos galhos? Olha-me com desprezo, de cima,
embora ainda no chão; o olhar de um gavião é sempre mais
alto do que nós.
É um animal nobre. Viveu em ducados, condados e principados. É
um rei, um gavião-real mesmo quando não ostenta esse título.
É belo e sabe que impressiona pela sua beleza; é temido pelas
garras mortais; impressiona pela beleza.
Mas o gavião na calçada apenas come uma lagarta. Estou quase
repetindo Rimbaud quando escrevia algo como: "A aranha no cercado apenas
come violetas." É a minha imagem mágica: O gavião
come a lagarta. Circunspecto, com aplicação, altivo.
A altivez do gavião e a altivez da lagarta. Duas naturezas selvagens.
O gavião me ignora. A lagarta ignora o gavião, que a devora. A
altivez selvagem da vida.
Eu me aproximo, estou a dois passos. Ele não tem medo, eu é que
devo temê-lo. Abre as asas, afronta-me. Dou um passo para trás,
ele voa para um galho baixo da árvore, depois para outro e outro, sempre
com a lagarta no bico. Olha-me, glorioso, um rei no seu trono
Segura a lagarta com as garras e grita. Seria um grito de cólera, de
angústia pura? Segurava nas garras a lagarta como se fosse uma serpente
viva. Depois, soltou um grito aflito. E enfim, o silêncio.
O silêncio do gavião não tem nenhum mistério. É
a voz da natureza que se calça em sua garganta. Vira-me as costas, com
indiferença calculada, e afasta-se, solene.
Isto foi há uns meses. O gavião veio com o verão, talvez
ainda na primavera. Nunca mais o vi. Mas encontrei uma pena dourada na minha
varanda: ele não me esquecera, não me abandonou. Ainda há
pouco, quando me sentei para escrever, ouvi o seu grito na frente da janela.
O gavião sobrevoa a cidade como se fosse a sua floresta, supervisiona
a partilha do mundo. Imagino-o dominando o seu novo reino.
Se fosse Manoel de Barros, falaria da menina que apareceu grávida de
um gavião. A menina que me olhava com uma coroa brilhando nos olhos,
e desapareceu de repente.
Lembraria que o gavião foi feito para a solidão, longe da família,
do bando, separado para sempre das campinas e da floresta? Quanto eu saiba,
talvez fosse feliz.
Sinto que estou olhando para um anjo. O gavião é um guardião
da paz. O gavião ao amanhecer, com o orvalho das estrelas nas asas.
No alto, entre as nuvens e os aviões, planava o gavião. Deixa
passar o vento e some-se. Do gavião, resta o grito. Adivinho no grito
a sua presença, as garras tensas, o olhar de desdém, soberano.
Nas garras do gavião, no seu grito vermelho, a morte se desdobra. Tomo
a forma de um gavião e sobrevôo o mundo, com as garras doendo de
desejo.
(03-04-07)