Há três meses está preso no 91º Distrito Policial de
São Paulo um homem sem nome, sem identidade nenhuma, sem antecedente
policial, sem impressão digital. Um homem que oficialmente não
existe. Não se comunica em nenhuma língua conhecida, não
entende nenhuma linguagem de sinais, fechou-se em copas para tudo e todos.
Foi preso quando invadia um imóvel para roubar esquadrias de alumínio
das janelas, para vender. Mas se não se comunica, como iria vender as
esquadrias? E quem disse que iria vender? O homem é um enigma. Todo homem
é um enigma, ninguém conhece ninguém neste mundo, nem a
nós mesmos não nos conhecemos, que dizer então de um homem
fechado em si, com um cadeado na língua?
Logo me lembrei de Kaspar Hauser. Era também um homem que não
se comunicava, vivera isolado do mundo desde criança até adulto
- um adulto com mentalidade de criança. Quem deu o nome de Kaspar Hauser
a Kaspar Hauser? Seria de uma família nobre, banido do convívio
humano para proteger interesses escusos de uma escusa nobreza. Mas, e o nosso
homem sem nome, quem o teria banido do convívio humano? Em nome de que
falta de nobreza humana?
Vi o filme "Kaspar Hauser", de Herzog. Um grande filme. Era já
um personagem histórico, Herzog investigou a sua estranheza. Causa espécie
um homem ser um estranho entre os homens. E o nosso homem estranho, quem vai
investigar a sua humanidade perdida? "Como condenar alguém que não
se sabe quem é?", diz a juíza que quer julgá-lo. Mas
condená-lo de quê? De não ser? Ele já é um
condenado.
A foto no jornal mostra um homem forte, robusto, mas estranho. Um homem que
estranha estar ali. Não seríamos nós os estranhos? Ele
nos estranha. Nós somos estrangeiros, esquisitos, estúrdios. Ele
nos julga. Com todo o direito a fazê-lo, ouviram?
Ponha-se na pele do homem sem nome. Do homem que não existe. Como seria
você andar pela rua sem entender o que os outros falam, sem que ninguém
o entenda? Você não sabe quem é, não sabe quem são
os outros, o que pensam, o que querem de você. E os estúpidos botam
você numa jaula. Ou não será estupidez enjaular um ser humano
porque não o compreendemos?
Fizeram o gesto de uma mãe embalando uma criança. Ele teria entendido
que perguntavam de sua mãe? Olhou para o céu, onde ela estaria.
Foi a interpretação de um preso, que vê no homem sem nome
um irmão de sorte, de infelicidade, de destino marginal. Os prisioneiros
estão à margem da sociedade, mas sabem disso, e sabem que ninguém
está mais à margem do que o homem sem nome, porque nem isso sabe.
Não sabe nada. Ou seremos nós que não sabemos nada? Tenho
vergonha da minha condição humana que exclui quem não é
como nós. Excluímos quem não entendemos.
O homem sem nome, quando lhe perguntam quem é, responde com uma espécie
de assobio. Está gozando da nossa cara estúpida? Está sofrendo,
soltando um fino gemido de angústia? Um gemido estrambótico que
nem ele entende? Ou nós é que não entendemos?
Está na ordem do dia a tribo amazônica dos pirahãs que
contraria a Gramática Universal de Noam Chomsky, com número limitadíssimo
de combinações de sons, mínimas vogais, mínimas
consoantes, que contam só até três, etc. Pois bem: são
uma tribo, se comunicam. Contrariam as expectativas, mas formam uma sociedade
com seus costumes, suas leis. Mínimos costumes, mínimas leis,
mas existem. O homem sem nome não tem nem o mínimo.
Vou dar um nome ao homem sem nome: meu irmão. Antes que digam que o
homem sem nome não existe, eu quero proclamar alto e bom som: ele é
meu irmão. Este homem estranho, e como somos todos estranhos quando nos
confrontamos com a sua estranheza. É a minha face, é a sua face.
É a nossa cara cuspida e escarrada, com toda a estranheza e a vergonha
que carregamos pelas ruas.
Nada do que é humano me é estranho? O meu irmão tem todo
o direito de achar muito estranho tudo que lhe impingem como humano.