A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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O homem sem nome

(José Carlos Brandão)

Há três meses está preso no 91º Distrito Policial de São Paulo um homem sem nome, sem identidade nenhuma, sem antecedente policial, sem impressão digital. Um homem que oficialmente não existe. Não se comunica em nenhuma língua conhecida, não entende nenhuma linguagem de sinais, fechou-se em copas para tudo e todos.

Foi preso quando invadia um imóvel para roubar esquadrias de alumínio das janelas, para vender. Mas se não se comunica, como iria vender as esquadrias? E quem disse que iria vender? O homem é um enigma. Todo homem é um enigma, ninguém conhece ninguém neste mundo, nem a nós mesmos não nos conhecemos, que dizer então de um homem fechado em si, com um cadeado na língua?

Logo me lembrei de Kaspar Hauser. Era também um homem que não se comunicava, vivera isolado do mundo desde criança até adulto - um adulto com mentalidade de criança. Quem deu o nome de Kaspar Hauser a Kaspar Hauser? Seria de uma família nobre, banido do convívio humano para proteger interesses escusos de uma escusa nobreza. Mas, e o nosso homem sem nome, quem o teria banido do convívio humano? Em nome de que falta de nobreza humana?

Vi o filme "Kaspar Hauser", de Herzog. Um grande filme. Era já um personagem histórico, Herzog investigou a sua estranheza. Causa espécie um homem ser um estranho entre os homens. E o nosso homem estranho, quem vai investigar a sua humanidade perdida? "Como condenar alguém que não se sabe quem é?", diz a juíza que quer julgá-lo. Mas condená-lo de quê? De não ser? Ele já é um condenado.

A foto no jornal mostra um homem forte, robusto, mas estranho. Um homem que estranha estar ali. Não seríamos nós os estranhos? Ele nos estranha. Nós somos estrangeiros, esquisitos, estúrdios. Ele nos julga. Com todo o direito a fazê-lo, ouviram?

Ponha-se na pele do homem sem nome. Do homem que não existe. Como seria você andar pela rua sem entender o que os outros falam, sem que ninguém o entenda? Você não sabe quem é, não sabe quem são os outros, o que pensam, o que querem de você. E os estúpidos botam você numa jaula. Ou não será estupidez enjaular um ser humano porque não o compreendemos?

Fizeram o gesto de uma mãe embalando uma criança. Ele teria entendido que perguntavam de sua mãe? Olhou para o céu, onde ela estaria. Foi a interpretação de um preso, que vê no homem sem nome um irmão de sorte, de infelicidade, de destino marginal. Os prisioneiros estão à margem da sociedade, mas sabem disso, e sabem que ninguém está mais à margem do que o homem sem nome, porque nem isso sabe.

Não sabe nada. Ou seremos nós que não sabemos nada? Tenho vergonha da minha condição humana que exclui quem não é como nós. Excluímos quem não entendemos.

O homem sem nome, quando lhe perguntam quem é, responde com uma espécie de assobio. Está gozando da nossa cara estúpida? Está sofrendo, soltando um fino gemido de angústia? Um gemido estrambótico que nem ele entende? Ou nós é que não entendemos?

Está na ordem do dia a tribo amazônica dos pirahãs que contraria a Gramática Universal de Noam Chomsky, com número limitadíssimo de combinações de sons, mínimas vogais, mínimas consoantes, que contam só até três, etc. Pois bem: são uma tribo, se comunicam. Contrariam as expectativas, mas formam uma sociedade com seus costumes, suas leis. Mínimos costumes, mínimas leis, mas existem. O homem sem nome não tem nem o mínimo.

Vou dar um nome ao homem sem nome: meu irmão. Antes que digam que o homem sem nome não existe, eu quero proclamar alto e bom som: ele é meu irmão. Este homem estranho, e como somos todos estranhos quando nos confrontamos com a sua estranheza. É a minha face, é a sua face. É a nossa cara cuspida e escarrada, com toda a estranheza e a vergonha que carregamos pelas ruas.

Nada do que é humano me é estranho? O meu irmão tem todo o direito de achar muito estranho tudo que lhe impingem como humano.

(17-04-07)
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