A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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A cadela do rio gordo

(José Carlos Brandão)

Quando fui pescar à beira do grande rio, fiquei a um canto contemplando a paisagem e a paisagem passava e passava alheia a tudo.

*

O ato de ver é alto e calmo como uma folha. Conheço o canto do pássaro no ramo e a minha palavra era mais leve do que a luz. A chuva lavava tudo quanto eu falava.

Eu atolava os pés bem dentro da terra, embrenhava o corpo no corpo do mato. A roseira chovia em mim a cor das pétalas.

A folha alta e calma se abre para a visão. O pássaro voa e o canto permanece no ramo e do ramo vai caindo a chuva e a minha voz.

*

A formiga se ajoelha para o tamanduá. Sobe um gemido de princípio de mundo, do monjolo monótono moendo a estrada.

Cupim-menino estuda arquitetura.A margem do rio linda com a aurora. Chove no meu olho a cor das coisas sem nome.

A garça se equilibra no brilho da água. O rio transborda de pétalas e penas. Mulheres e porcas estão parindo. O azul relincha no dia das potrancas.

Uma vaca morta vem navegando com o seu urubu-pirata em cima. Emas no capinzal tinem as esporas, num vôo rasante contra os tições do sol.

*

O rio estava tão cheio que as mulheres pariam e a barranca era uma vaca sangrando. Um quero-quero berrou a festa do barro, as porcas se arrebentavam contra o céu e o sol era tão azul que gania. O meu pântano borbulhava, eu coaxava como um sapo gordo. Uma garça se inclinava para dentro de mim, me bebia.

A rosa da vaca sangrava. Eu quero todas as graças da vida: não me venham com meias palavras, eu sou um palavrão esventrado. A árvore espuma no rio, com mil crianças montadas
nas suas éguas. A felicidade na barriga do sol, a festa das crianças e das porcas na água. As mulheres cantavam os lençóis da morte e da vida flutuando na água.

*

Emas correndo, emas voando com o sol nas costas, com o sol nas patas. O boi velho adora as moscas no atoleiro. As baratas são tições no capinzal. Os besouros têm sapatos pesados e sufocam. O boi engole fogo pelas ventas. O veado e a jaguatirica no ar; a anta em prece se ajoelha.

O mato se queima, os bichos naufragam no rio gordo. O rio gordo solta a cadela para cruzar com os bichos. No meu tronco chamuscado as últimas fagulhas; uma brasa queima nos meus olhos e na minha língua. O rio gordo, a cadela do rio gordo, os bichos, a fome gorda dos bichos no crepúsculo do rio gordo.

*

Os peixes do rio gordo são estrelas caídas, de cabecinha de fora olhando o céu. A boca aberta canta, corta o azul. Que anzol me pescaria, ó palavra? Quem tocaria a carroça da alvorada? Quem quebraria a garrafa? Eu quero os cacos e o sangue que explode de dentro.

Trago um mugido dentro do peito, trago uma cadela dentro do peito, uma cadela no cio e o rio gordo, a terra gorda.

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