Quando fui pescar à beira do grande rio, fiquei a um canto contemplando a paisagem e a paisagem passava e passava alheia a tudo.
*
O ato de ver é alto e calmo como uma folha. Conheço o canto do
pássaro no ramo e a minha palavra era mais leve do que a luz. A chuva
lavava tudo quanto eu falava.
Eu atolava os pés bem dentro da terra, embrenhava o corpo no corpo do
mato. A roseira chovia em mim a cor das pétalas.
A folha alta e calma se abre para a visão. O pássaro voa e o
canto permanece no ramo e do ramo vai caindo a chuva e a minha voz.
*
A formiga se ajoelha para o tamanduá. Sobe um gemido de princípio
de mundo, do monjolo monótono moendo a estrada.
Cupim-menino estuda arquitetura.A margem do rio linda com a aurora. Chove no
meu olho a cor das coisas sem nome.
A garça se equilibra no brilho da água. O rio transborda de pétalas
e penas. Mulheres e porcas estão parindo. O azul relincha no dia das
potrancas.
Uma vaca morta vem navegando com o seu urubu-pirata em cima. Emas no capinzal
tinem as esporas, num vôo rasante contra os tições do sol.
*
O rio estava tão cheio que as mulheres pariam e a barranca era uma vaca
sangrando. Um quero-quero berrou a festa do barro, as porcas se arrebentavam
contra o céu e o sol era tão azul que gania. O meu pântano
borbulhava, eu coaxava como um sapo gordo. Uma garça se inclinava para
dentro de mim, me bebia.
A rosa da vaca sangrava. Eu quero todas as graças da vida: não
me venham com meias palavras, eu sou um palavrão esventrado. A árvore
espuma no rio, com mil crianças montadas
nas suas éguas. A felicidade na barriga do sol, a festa das crianças
e das porcas na água. As mulheres cantavam os lençóis da
morte e da vida flutuando na água.
*
Emas correndo, emas voando com o sol nas costas, com o sol nas patas. O boi
velho adora as moscas no atoleiro. As baratas são tições
no capinzal. Os besouros têm sapatos pesados e sufocam. O boi engole fogo
pelas ventas. O veado e a jaguatirica no ar; a anta em prece se ajoelha.
O mato se queima, os bichos naufragam no rio gordo. O rio gordo solta a cadela
para cruzar com os bichos. No meu tronco chamuscado as últimas fagulhas;
uma brasa queima nos meus olhos e na minha língua. O rio gordo, a cadela
do rio gordo, os bichos, a fome gorda dos bichos no crepúsculo do rio
gordo.
*
Os peixes do rio gordo são estrelas caídas, de cabecinha de fora
olhando o céu. A boca aberta canta, corta o azul. Que anzol me pescaria,
ó palavra? Quem tocaria a carroça da alvorada? Quem quebraria
a garrafa? Eu quero os cacos e o sangue que explode de dentro.
Trago um mugido dentro do peito, trago uma cadela dentro do peito, uma cadela
no cio e o rio gordo, a terra gorda.