O peixe nadava tranqüilamente pela rodovia, quando veio um carro e... Mas
como? Um peixe no meio da rodovia? Sorte que era uma motorista precavida, e
que enxergava bem: viu o saquinho de peixes caído no asfalto, parou,
brecou como pôde - bruscamente. E aí a sorte virou azar: mais quatro
carros vinham logo em seguida e não conseguiram brecar a tempo, o que
resultou no engavetamento de cinco carros, cada um dos seus ocupantes ficando
feridos, ainda bem que levemente. O peixe nadava tranqüilamente, eu escrevi.
Não deveria, mas foi a imagem que me ocorreu. Soube que havia um peixe
na estrada, portanto deveria estar nadando. Não imaginaria que se tratava
de um saquinho de peixes; que os ditos peixinhos nadavam dentro do saquinho,
em segurança, até serem atropelados - ou queimados pelo sol.
Agora fico imaginando quem foi o imprevidente que derrubou o saquinho bem no
meio da estrada. Se sabia que tinha tais atribuições - porque
um imprevidente sabe que é imprevidente - deveria deixar o saquinho em
casa, ou na loja. Deveria deixar os peixinhos no aquário, que é
o lugar deles. Mas se fosse mais previdente, não tiraria os peixinhos
do lugar real deles, do seu habitat natural: o rio, talvez o mar. É isso
que dá mexermos com a natureza. Em lugar de deixarmos as coisas seguirem
seu curso, as águas a caminho do mar, os peixes dentro das águas
e não vivendo uma vida artificial como nós vivemos. Resultado:
quase várias pessoas morrem. Porque agimos contra a natureza. Não
foram os peixinhos que estavam nadando na estrada. Foram os homens que os levaram
lá, para morrer e matar. É o óbvio, mas é preciso
lembrar dessa auto-acusação. Sempre são os homens que agem
contra a natureza. Somos nós os culpados.
Estou comentando um caso menor, acontecido numa estrada da Alemanha, mas que
pode acontecer em qualquer lugar do mundo e pode assumir proporções
gigantescas. O problema não é apenas o fato de cinco ou seis pessoas
ficarem hospitalizadas, por um leve acidente. O problema é a agressão
contra a natureza, representada por esse saquinho de peixes jogado na estrada.
Os peixinhos não estavam nadando tranqüilamente na rodovia, nem
estão em tranqüilidade soltos nos rios ou nos mares. São
as vítimas do progresso, como nós. Mas nós somos vítimas
e agentes do progresso. Quando olharmos para trás será tarde.
Teremos engavetado todas as idéias saudáveis, todos os projetos
que poderiam conduzir-nos para um mundo melhor, justamente em nome de um mundo
melhor. Enforcamo-nos para testar a melhor corda para um enforcamento. (Mas
só os corruptos japoneses se enforcam.) Testamos a melhor forma de acabar
com a humanidade, querendo levá-la ao paraíso das delícias
terrestres. Em nome do bem-estar, preparamos a destruição da terra
em que vivemos.
Freud escreveu sobre o mal-estar da civilização - esqueceu-se
de que não era filósofo? Lembrou-se de que era humano, demasiado
humano. Não estava procurando chifres em cabeça de cavalo. Estava
constatando: estamos tão empenhados em ser felizes, procuramos tanto
o bem-estar, que acabamos encontrando só o mal-estar. Ou podemos ser
felizes com uma vida artificial? Não estamos embalados em saquinhos de
plástico como os peixinhos da rodovia alemã? Ou seremos atropelados
ou morreremos sufocados pelo plástico que nos envolve. Mal-estar existencial
que há cem anos Freud já não explicava. Estranho rio, o
asfalto dos peixinhos. Estranha terra a nossa, a bolha de ozônio e o aquecimento
acelerado. Muito estranha, a nossa vida de plástico.