Jan Grzebski era um ferroviário polonês que, em um acidente de
trabalho, feriu a cabeça e entrou em coma, em 1988. Acordou depois de
dezenove anos, em um mundo completamente diferente daquele que conhecia. Seria
inimaginável a mudança que ocorreu. Quem de nós poderia
conceber, então, tais transformações? Nem hoje podemos
conceber a amplitude das transformações por que passou o mundo.
Jan Grzebski sentiu na pele - é quase um privilégio, diríamos,
se não fosse trágico - como a lagarta se fechou no casulo e saiu
voando já borboleta.
A Polônia era um país comunista, sob a Cortina de Ferro; existia,
inatacável, a União Soviética; o Muro de Berlim iria permanecer
de pé para sempre. Um mero sindicalista, Lech Walesa, chegou ao poder
em seu país. A União Européia era um projeto há
muito tempo, era mais do que um sonho, mas ainda era um sonho, quando Jan Grzebski
adormeceu; quando acordou era uma realidade de que a própria Polônia
fazia parte.
Gertruda, a mulher, foi uma heroína. O marido foi desenganado pelos médicos;
ainda em coma, desenvolveu um câncer no cérebro: não tinha
salvação. Pois para ela tinha: quem ama conhece mais do que os
médicos. Levou-o para casa, alimentou-o e movimentou-o; quando ninguém
esperava mais nada, aconteceu um milagre: uma pneumonia mandou-o para o hospital,
onde, em lugar de morrer, começou a se mexer e a sua fala se tornou mais
clara - embora só a mulher o compreendesse. Hoje, todos o compreendem
e logo voltará a andar. Milagres do amor. Nos tempos do comunismo, podia-se
falar em milagre? Em Deus? Gertruda insiste em falar em fé. Não
fala em que tinha fé, mas certamente não era na ciência
nem na política. Eu mesmo chamei de "milagres do amor", para
simplificar.
Gertruda, a heroína, diz que o marido se lembra de tudo que aconteceu
em casa nesses dezenove anos, como o casamento dos quatro filhos. Quando entrou
em coma, seus filhos eram crianças; agora, eles lhe deram onze netos.
Não foi só isso que mudou. Não foi só o comunismo
que acabou. Nem só o Muro de Berlim e a União Soviética
que não existem mais. Não existe o homem daquela época.
Era um homem cinzento - mas era o homem que Jan Grzebski conhecera. Não
o homem virtual que está sendo criado. Não o homem desse admirável
mundo novo que o neoliberalismo nos trouxe.
Só pode estar encantado com o admirável mundo novo que encontrou.
As ruas, as casas, as pessoas eram cinzentas; tornaram-se coloridas, vivas,
belas. As prateleiras, que só exibiam mostarda e vinagre, estão
repletas de mercadorias. O mundo só pode estar mais bonito, como se fosse
uma fábula admirável. Não pode imaginar mesmo, Jan Grzebski,
o novo espírito que foi moldado nos homens: uma outra mentalidade, uma
outra cabeça. Morreu o homem primitivo; nasceu o ser pós-moderno,
que já nem chamamos de homem.
"The Long Sleep" era apenas um romance noir de Raymond Chandler? Foi
o Longo Sono de que Jan Grzebski acordou? Será o Longo Sono de que acordaremos
um dia? Como quem conclui sua história: "Quando acordou, estava
morto."