A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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A saudade de pedra

(José Carlos Brandão)

Os grandes poemas perdem-se em si mesmos. Carregam tão grande carga de emoção, causam um tal abalo imediato na sensibilidade mais prevenida, que a delicadeza das imagens mais sugestivas fica esquecida no emaranhado de sensações globalizantes. A poesia de Fernando Pessoa é plena de achados originais, mas o maior talvez seja um verso perdido na sua Ode Marítima - poema extenso e rico, que deve ter produzido um impacto, algo como um choque físico na intelectualidade de seu tempo. Dentro desse poema, que quer gerar horrores e estupefações, alguns versos muito simples, e daquela beleza cativante que se aninha na simplicidade, e entre esses versos sobressaindo: "Ah, todo cais é uma saudade de pedra!"

Todo cais é uma saudade de pedra! Não poderia haver imagem mais contundente. Um sentimento mais indefinível, abstrato por definição, torna-se concreto pela sugestão da palavra, no cunho da imagem despojada. A carnificina do poema brutal, embora intelectualizado, perde-se na singeleza de uma imagem: saudade de pedra. Toda fantasia pode estar aí inoculada, materializada como por encanto. Como o poeta então deixou-se levar pela imaginação, como um volante vivo sacudindo-o - calmamente deixo-me levar pela intimidade desse encanto. Esqueço o poema, ou esqueço a sua grandiosidade, e deixo-me embalar na fantasia suave de umas poucas imagens. "E começo a sonhar, começo a envolver-me no sonho das águas", mas mansamente. Como quem não quer nada, os olhos fixos no longe e dentro de mim mesmo.

Penso num outro poema de Fernando Pessoa: "Ó mar salgado, quanto de teu sal / São lágrimas de Portugal!" Não posso pensar em saudade sem me lembrar de lágrimas, e a saudade de pedra, e a pedra desse cais interior - batida pelas águas do mar, vejo-a batizada de sal: do mar ou das lágrimas. Imaginação, fantasia fútil, nostalgia sacolejante nas ondas do mar. Sempre penso no mar como o mistério, a miragem de mundos impossíveis. Pela sugestão de um verso, de uma imagem esquecida, eis-me nas nuvens, abstraído da realidade. É este o mal da poesia? Ou é a sua virtude? Mas existe alguma abstração, alguma alienação possível? O que é a realidade? A matéria inerte, as idéias preconcebidas, os passos ou os gestos, as palavras ou os hábitos sempre os mesmos - é isso a realidade? Todo cais é uma saudade de pedra e todo impulso interior é uma pedra do edifício humano: meras fantasias podem justificar o ser, são parte dele.

"Estoiram em espumas as minhas ânsias / E a minha carne é uma onda dando de encontro a rochedos!" As ânsias transubstanciam-se em espumas, a carne em ondas volta-se violentamente: a poesia tudo pode, não deixou de ser uma necessidade neste mundo mecanizado. Será uma válvula de escape? Prefiro vê-la como uma tomada de consciência: espelho onde o homem se encontra. Não há fugas; há encontros. Há uma sociedade com seus rótulos onde o homem, também com seus rótulos, subsiste; e há o homem a busca de sua identidade. Não importa onde, mas encontra-a sempre: recria na tranqüilidade a sua face. Há que aprender o valor do silêncio, da solidão, do recolhimento interior, da beleza fugidia e perene de uma imagem: como forças criadoras, como necessidades prementes da vida. Então uma saudade de pedra será muito mais que uma imagem vã.

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