Os grandes poemas perdem-se em si mesmos. Carregam tão grande carga de
emoção, causam um tal abalo imediato na sensibilidade mais prevenida,
que a delicadeza das imagens mais sugestivas fica esquecida no emaranhado de
sensações globalizantes. A poesia de Fernando Pessoa é
plena de achados originais, mas o maior talvez seja um verso perdido na sua
Ode Marítima - poema extenso e rico, que deve ter produzido um impacto,
algo como um choque físico na intelectualidade de seu tempo. Dentro desse
poema, que quer gerar horrores e estupefações, alguns versos muito
simples, e daquela beleza cativante que se aninha na simplicidade, e entre esses
versos sobressaindo: "Ah, todo cais é uma saudade de pedra!"
Todo cais é uma saudade de pedra! Não poderia haver imagem mais
contundente. Um sentimento mais indefinível, abstrato por definição,
torna-se concreto pela sugestão da palavra, no cunho da imagem despojada.
A carnificina do poema brutal, embora intelectualizado, perde-se na singeleza
de uma imagem: saudade de pedra. Toda fantasia pode estar aí inoculada,
materializada como por encanto. Como o poeta então deixou-se levar pela
imaginação, como um volante vivo sacudindo-o - calmamente deixo-me
levar pela intimidade desse encanto. Esqueço o poema, ou esqueço
a sua grandiosidade, e deixo-me embalar na fantasia suave de umas poucas imagens.
"E começo a sonhar, começo a envolver-me no sonho das águas",
mas mansamente. Como quem não quer nada, os olhos fixos no longe e dentro
de mim mesmo.
Penso num outro poema de Fernando Pessoa: "Ó mar salgado, quanto
de teu sal / São lágrimas de Portugal!" Não posso
pensar em saudade sem me lembrar de lágrimas, e a saudade de pedra, e
a pedra desse cais interior - batida pelas águas do mar, vejo-a batizada
de sal: do mar ou das lágrimas. Imaginação, fantasia fútil,
nostalgia sacolejante nas ondas do mar. Sempre penso no mar como o mistério,
a miragem de mundos impossíveis. Pela sugestão de um verso, de
uma imagem esquecida, eis-me nas nuvens, abstraído da realidade. É
este o mal da poesia? Ou é a sua virtude? Mas existe alguma abstração,
alguma alienação possível? O que é a realidade?
A matéria inerte, as idéias preconcebidas, os passos ou os gestos,
as palavras ou os hábitos sempre os mesmos - é isso a realidade?
Todo cais é uma saudade de pedra e todo impulso interior é uma
pedra do edifício humano: meras fantasias podem justificar o ser, são
parte dele.
"Estoiram em espumas as minhas ânsias / E a minha carne é
uma onda dando de encontro a rochedos!" As ânsias transubstanciam-se
em espumas, a carne em ondas volta-se violentamente: a poesia tudo pode, não
deixou de ser uma necessidade neste mundo mecanizado. Será uma válvula
de escape? Prefiro vê-la como uma tomada de consciência: espelho
onde o homem se encontra. Não há fugas; há encontros. Há
uma sociedade com seus rótulos onde o homem, também com seus rótulos,
subsiste; e há o homem a busca de sua identidade. Não importa
onde, mas encontra-a sempre: recria na tranqüilidade a sua face. Há
que aprender o valor do silêncio, da solidão, do recolhimento interior,
da beleza fugidia e perene de uma imagem: como forças criadoras, como
necessidades prementes da vida. Então uma saudade de pedra será
muito mais que uma imagem vã.