É uma paisagem desolada. Um cinza esbranquiçado nos cai de chapa
nos olhos. Ruínas cinza, ruínas esfareladas, cinza que paira.
Um, dois, três postes no chão; tudo cai por terra neste mundo que
já não é este mundo; são restos de coisas. O que
foi uma casa, uma meia parede, caliça e caliça. Demolição,
derrelição, dor surda. Um baú abandonado quase à
beira da estrada; tudo está abandonado nesse não-mundo, mas o
que conteria esse baú? Tudo não é nesse não-mundo;
o baú não é; nada dentro. A memória do nada guardada
a sete chaves. Guardada? O baú não teria fundo; ou estaria destruído
no lado que não se vê. E sempre teria o nada dentro. Esta é
uma paisagem do nada.
No lado da estrada, duas mulheres nos olham. A da esquerda ergue a mão
esquerda, protegendo os olhos do sol. Há sol nesse lugar? Há claridade.
Será ainda a claridade da explosão? Houve uma explosão?
Alguém poderia dizer o que aconteceu? Um baque súbito. O baque
do nada. Houve um baque, e depois, o nada. Um cogumelo erguendo-se como um enorme
guarda-chuva. Um cogumelo como um seio materno protegendo a cidade. Como um
útero. O filho nasce morto. Por isso as mulheres estão de luto.
De preto; as roupas e o corpo, de preto; vestidas de dor, mais do que de dor,
de estupefação. Não compreendem o que sentem; nem é
dor; pasmo, fim. E caminham; de lugar nenhum, para nenhum lugar. A mulher da
direita leva uma pequena bolsa; é toda a bagagem das mulheres; não
levam nada; talvez levem a memória, mas memória de nada.
Há ainda dois, três, quatro postes em pé; e fios que vêm
e vão, mas de nenhum lugar, para lugar nenhum. Tudo é não,
neste mundo-não. Fios lembram comunicação, mas com quem?
Quem? O quê? Todas as mensagens morreram. Este é o mundo da morte.
Ou dos mortos-vivos. Este mundo é uma grande catacumba, e uma catacumba
em ruínas. Os fios apagam-se no céu apagado. Que céu nos
bastaria? Que céu para nossa fome de céu? Não há
céu. Há desolação. Desolação e cinza.
As montanhas ao fundo, que seriam verdes, são cinza. O céu, azul,
é cinza. Não há fome; não temos mais fome de nada.
O cogumelo já se abaixou sobre a terra. Esse fruto de um útero
podre já nos devorou até a fome; não temos mais anseio
nenhum; somos nada.
Quatro,cinco, seis, várias árvores estão de pé.
Resistem ainda? Não têm forças nem para cair por terra.
Desgalhadas, secas, desfazendo-se em pó. Não há vida neste
planeta cinza. Nenhum verde. Nenhuma esperança tem direito de vida. Os
prédios na cidade ao fundo estão de pé, mas mortos. Prédios-fantasmas.
Esta é uma cidade de fantasmas. As duas mulheres caminhando na beira
da estrada são fantasmas. Estão de negro, a cor dos fantasmas.
Não são brancos, os fantasmas. São negros. A cor da beleza.
A ausência da cor; mas a cor da beleza. Há que se ver beleza nessa
paisagem do nada. Dói, em sua ausência de dor. Página virada,
de um livro branco.