Marina Tsvetáieva, numa carta a Boris Pasternak, se apresenta como "moça
num vestido velho" para falar do poeta no mundo consumista de hoje, sem sensibilidade
e sem transcendência.
É o que leio no final de um artigo de Bernardo Carvalho. O tema é
a frieza do Estado na Rússia de Pútin, em que a poesia não
tem mais lugar nem importância. A mim me interessa mesmo a expressão
"moça num vestido velho".
Lembrei-me logo da alegoria de Mário de Andrade em "A escrava que
não era Isaura": a mulher belíssima que vai sendo cada vez
mais enfeitada, coberta de roupas finas, de jóias preciosas, tanto e de
tal modo que logo não se reconhece mais a mulher. Até que vem um
moleque genial, Rimbaud, e despe a mulher - a poesia em sua virginal sensualidade.
Nada como a poesia como uma "moça num vestido velho". Qual é
a roupa mais confortável, mais gostosa de ser vestida? Certamente que a
roupa velha. Fôssemos menos pernósticos e os brechós viveriam
cheios de fregueses. Somos enjoadinhos, mas bem que gostamos de ficar em casa
com uma roupa velha, folgada, desajeitada, muito à vontade.
Assim deveria ser a poesia: que nos caia bem como uma roupa velha, que já
se acostumou com o nosso corpo. O sapato velho é o que nos machuca menos
o pé, é o que nos incomoda menos para andar. A poesia ideal é
o sapato gasto, a camiseta rustida, meio manchada, meio furada.
Precisamos das máquinas, da tecnologia, dependemos tanto delas que se tornam
imprescindíveis. Não usufruímos mais do calor da vida - somos
tão escravizados que nos tornamos artificiais, como se vivêssemos
ilhados em bolhas de plástico. Num mundo perfeito, mas frio. Você
tem medo do sol? De se queimar, de suar, de cheirar mal por causa de tanto suor?
Você tem medo de viver?
Viver é andar a pé, sob o sol, contemplando a paisagem, ouvindo
os pássaros. Se possível ouvindo outros bichos, o cavalo, a vaca,
o macaco - se possível ouvindo o próprio homem. Como nos esquecemos
de nos ouvirmos! Isto é poesia, meus caros: a arte de nos ouvirmos.
Nada tão belo como uma mulher. Talvez, também, um rouxinol - mas
este vamos deixar para a poesia de Shakespeare ou Keats. Nós gostamos mesmo
é de mulher. Não há poesia melhor. Mas não vistam
demais a mulher. A beleza está na simplicidade. Há mulheres tão
enfeitadas, com roupas tão finamente tecidas, que você não
pode vê-las. Há mulheres tão lambuzadas de cosméticos
que você não pode tocá-las. Repito: a beleza está na
simplicidade.
E a sensualidade da mulher, onde está? Num vestido simples. É até
mais fácil de tirar. Dizem que a mulher se veste para ser despida. Não
é bem verdade, mas como é desagradável encontrar uma mulher
com mais roupas e jóias do que um pavão. O quê? Pavão
não usa jóias? Então, por que a mulher usa? Acredita-se melhor?
Ou pelo contrário, acha-se tão mais feia?
Brincadeiras à parte, vamos convir que a poesia é a mulher. A simplicidade
da mulher. E mais gostosa a poesia quando mais simples. Que vai direto ao ponto.
À essência do que quer dizer. Uma poesia que não diga nada.
Como uma pedra que você revira entre os dedos achando-a bela. Essa pedra
pode não valer nada. Pode nem ser especialmente bela: é tão
simples, que encanta. Tem um encantamento especial nas suas formas simples.
Mas a poesia num vestido velho. Mais próxima de nós. Uma flor que
você possa tocar, talvez comer - porque há flores comestíveis.
Olhai os lírios do campo, diz a Bíblia. Não estou pensando
na passagem que diz que não tecem nem fiam, que não trabalham nem
fazem mais nada. Estou pensando que os lírios não precisam de nada
para ser belos. A beleza não precisa de nada, a não ser os olhos
de quem a vê.
Eu, por mim, prefiro vê-la num vestido velho.