A Garganta da Serpente
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A poesia do vestido velho

(José Carlos Brandão)

Marina Tsvetáieva, numa carta a Boris Pasternak, se apresenta como "moça num vestido velho" para falar do poeta no mundo consumista de hoje, sem sensibilidade e sem transcendência.

É o que leio no final de um artigo de Bernardo Carvalho. O tema é a frieza do Estado na Rússia de Pútin, em que a poesia não tem mais lugar nem importância. A mim me interessa mesmo a expressão "moça num vestido velho".

Lembrei-me logo da alegoria de Mário de Andrade em "A escrava que não era Isaura": a mulher belíssima que vai sendo cada vez mais enfeitada, coberta de roupas finas, de jóias preciosas, tanto e de tal modo que logo não se reconhece mais a mulher. Até que vem um moleque genial, Rimbaud, e despe a mulher - a poesia em sua virginal sensualidade.

Nada como a poesia como uma "moça num vestido velho". Qual é a roupa mais confortável, mais gostosa de ser vestida? Certamente que a roupa velha. Fôssemos menos pernósticos e os brechós viveriam cheios de fregueses. Somos enjoadinhos, mas bem que gostamos de ficar em casa com uma roupa velha, folgada, desajeitada, muito à vontade.

Assim deveria ser a poesia: que nos caia bem como uma roupa velha, que já se acostumou com o nosso corpo. O sapato velho é o que nos machuca menos o pé, é o que nos incomoda menos para andar. A poesia ideal é o sapato gasto, a camiseta rustida, meio manchada, meio furada.

Precisamos das máquinas, da tecnologia, dependemos tanto delas que se tornam imprescindíveis. Não usufruímos mais do calor da vida - somos tão escravizados que nos tornamos artificiais, como se vivêssemos ilhados em bolhas de plástico. Num mundo perfeito, mas frio. Você tem medo do sol? De se queimar, de suar, de cheirar mal por causa de tanto suor? Você tem medo de viver?

Viver é andar a pé, sob o sol, contemplando a paisagem, ouvindo os pássaros. Se possível ouvindo outros bichos, o cavalo, a vaca, o macaco - se possível ouvindo o próprio homem. Como nos esquecemos de nos ouvirmos! Isto é poesia, meus caros: a arte de nos ouvirmos.

Nada tão belo como uma mulher. Talvez, também, um rouxinol - mas este vamos deixar para a poesia de Shakespeare ou Keats. Nós gostamos mesmo é de mulher. Não há poesia melhor. Mas não vistam demais a mulher. A beleza está na simplicidade. Há mulheres tão enfeitadas, com roupas tão finamente tecidas, que você não pode vê-las. Há mulheres tão lambuzadas de cosméticos que você não pode tocá-las. Repito: a beleza está na simplicidade.

E a sensualidade da mulher, onde está? Num vestido simples. É até mais fácil de tirar. Dizem que a mulher se veste para ser despida. Não é bem verdade, mas como é desagradável encontrar uma mulher com mais roupas e jóias do que um pavão. O quê? Pavão não usa jóias? Então, por que a mulher usa? Acredita-se melhor? Ou pelo contrário, acha-se tão mais feia?

Brincadeiras à parte, vamos convir que a poesia é a mulher. A simplicidade da mulher. E mais gostosa a poesia quando mais simples. Que vai direto ao ponto. À essência do que quer dizer. Uma poesia que não diga nada. Como uma pedra que você revira entre os dedos achando-a bela. Essa pedra pode não valer nada. Pode nem ser especialmente bela: é tão simples, que encanta. Tem um encantamento especial nas suas formas simples.

Mas a poesia num vestido velho. Mais próxima de nós. Uma flor que você possa tocar, talvez comer - porque há flores comestíveis. Olhai os lírios do campo, diz a Bíblia. Não estou pensando na passagem que diz que não tecem nem fiam, que não trabalham nem fazem mais nada. Estou pensando que os lírios não precisam de nada para ser belos. A beleza não precisa de nada, a não ser os olhos de quem a vê.

Eu, por mim, prefiro vê-la num vestido velho.

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