O meu gavião voltou. Passou planando acima de mim, acima das árvores,
no céu muito azul, claro, sem nuvens. Passou e soltou o seu grito estridente,
como a lembrar: Estou aqui.
Dia claro, límpido, com todas as certezas entre os dedos. Um tapete de
flores amarelas cobre o chão. Não é tão fácil
entender a vida: o verde das árvores, a beleza das flores amarelas e
o céu azul, impassível. Há mistérios que não
deciframos.
Lembro Emily Dickinson: "A vida é breve; a angústia, absoluta."
Querer entender a vida leva à angústia. O gavião talvez
saiba que há respostas impossíveis, e segue seu rumo.
Cecília Meirelles diria: "Deus não fala comigo/ e eu sei
que me conhece." Desabafo de poeta. A minha linguagem de homem, imperfeita,
tatibitate, é insuficiente para falar com Deus. Para ouvi-lo, entendê-lo.
Por que não quis que o entendêssemos? Porque nos quis homens, e
nós amamos esta nossa condição humana, com todas as suas
misérias. Damos graças a Deus por sermos quem somos, pelo dom
da vida, com seus enigmas, jorrando de um mistério maior, que não
se desvenda.
O nosso próprio cotidiano é um mistério. As pedras em que
piso, o ar que respiro, as casas habitadas por homens. Quem são esses
homens? O que é esse ar? Tenho consciência de estar respirando?
E, no entanto, respiro. O que são as pedras? Têm alguma vida interior?
É preciso que as coisas tenham vida interior? Mas as pedras não
são enigmáticas? Eu penso nas pedras por dentro, não podem
se restringir à superfície vaga, abstrata. Com tanto peso que
têm, as pedras.
Mas continuo a minha caminhada, e deparo-me com o mundo do consumo à
minha volta. "Melancolias, mercadorias, espreitam-me", diz Drummond.
Li uma crônica de Carlos Heitor Cony, em que ele começava falando
de melancia e eu lia melancolia. As mercadorias à minha volta lembram-me
da melancolia de que falava o poeta. Como acertam, os poetas. Embora, decididamente,
eu não esteja melancólico. Estou meio triste, tenho o direito
de estar meio triste, não?
Se comecei falando do dia claro, não foi para elogiar o dia. O dia está
claro e seco, de matar. Estou com a língua seca, a pele gruda no fundo
da boca, parte-se. Uma sensação estranha, como se alguma coisa
se partisse. Como se fosse preciso evitar um movimento muito brusco, capaz de
arrebentar algum nervo, pele, válvula. E me lembro de um verso meu: "A
minha língua está seca de tanto contar os mortos." É
quase um poema inteiro. Tem um belo título: "O arco-íris".
Um verso introdutório: "O arco-íris assinala o lugar das
covas." E depois a língua seca de tanto contar os mortos. É
preciso mais alguma coisa? Poema completo, seco. Meu Deus, este calor, esta
secura.
Leio que morre na França um dos pais da contra-cultura: Jean-François
Bizot. Integrante do movimento de maio de 68. Tinha 63 anos de idade, era da
minha geração. Em 68, eu tinha 21 anos de idade. Vivi aquela época
conturbada, a sua ideologia, os seus sonhos, caminhos e descaminhos. Contra
a autoridade, as proibições, os pais ou o que eles representavam.
Contra a religião. A favor dos direitos do corpo. Faça o amor,
não faça a guerra. Era um beco sem saída.
Bizot definia contra-cultura como: "ser capaz de não estar na linha,
ter a coragem de fazer aquilo que sai dos esquemas da época". Mas
a linha daquela época era aquela. Você tinha a linha e o anzol,
só podia morder a isca e acabar fisgado.
O difícil mesmo, quase impossível, heróico, era roer essa
linha. Eu roí.
Nenhuma nuvem no céu. Claridade, certeza, horizonte. Muito complicada
a vida? Se quero respostas que não posso ter. Se não compreendo
que o absoluto não é apreensível por meus sentidos parcos,
limitados. Se me angustio porque me acho impotente ou, ao contrário,
onipotente. Vivo a condição humana, e as nuvens passam, vão
e vêm, a me lembrar que eu sou como elas: vim para passar. O que fica
mesmo é o céu azul. A imagem de Deus, que não vemos, refletida
nesse manso lago azul, turvado por nuvens ou cisnes brancos, passageiros como
nós.
E o gavião, de ouro, segue seu rumo.