A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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O dia do gavião

(José Carlos Brandão)

O meu gavião voltou. Passou planando acima de mim, acima das árvores, no céu muito azul, claro, sem nuvens. Passou e soltou o seu grito estridente, como a lembrar: Estou aqui.

Dia claro, límpido, com todas as certezas entre os dedos. Um tapete de flores amarelas cobre o chão. Não é tão fácil entender a vida: o verde das árvores, a beleza das flores amarelas e o céu azul, impassível. Há mistérios que não deciframos.

Lembro Emily Dickinson: "A vida é breve; a angústia, absoluta." Querer entender a vida leva à angústia. O gavião talvez saiba que há respostas impossíveis, e segue seu rumo.

Cecília Meirelles diria: "Deus não fala comigo/ e eu sei que me conhece." Desabafo de poeta. A minha linguagem de homem, imperfeita, tatibitate, é insuficiente para falar com Deus. Para ouvi-lo, entendê-lo. Por que não quis que o entendêssemos? Porque nos quis homens, e nós amamos esta nossa condição humana, com todas as suas misérias. Damos graças a Deus por sermos quem somos, pelo dom da vida, com seus enigmas, jorrando de um mistério maior, que não se desvenda.

O nosso próprio cotidiano é um mistério. As pedras em que piso, o ar que respiro, as casas habitadas por homens. Quem são esses homens? O que é esse ar? Tenho consciência de estar respirando? E, no entanto, respiro. O que são as pedras? Têm alguma vida interior? É preciso que as coisas tenham vida interior? Mas as pedras não são enigmáticas? Eu penso nas pedras por dentro, não podem se restringir à superfície vaga, abstrata. Com tanto peso que têm, as pedras.

Mas continuo a minha caminhada, e deparo-me com o mundo do consumo à minha volta. "Melancolias, mercadorias, espreitam-me", diz Drummond. Li uma crônica de Carlos Heitor Cony, em que ele começava falando de melancia e eu lia melancolia. As mercadorias à minha volta lembram-me da melancolia de que falava o poeta. Como acertam, os poetas. Embora, decididamente, eu não esteja melancólico. Estou meio triste, tenho o direito de estar meio triste, não?

Se comecei falando do dia claro, não foi para elogiar o dia. O dia está claro e seco, de matar. Estou com a língua seca, a pele gruda no fundo da boca, parte-se. Uma sensação estranha, como se alguma coisa se partisse. Como se fosse preciso evitar um movimento muito brusco, capaz de arrebentar algum nervo, pele, válvula. E me lembro de um verso meu: "A minha língua está seca de tanto contar os mortos." É quase um poema inteiro. Tem um belo título: "O arco-íris". Um verso introdutório: "O arco-íris assinala o lugar das covas." E depois a língua seca de tanto contar os mortos. É preciso mais alguma coisa? Poema completo, seco. Meu Deus, este calor, esta secura.

Leio que morre na França um dos pais da contra-cultura: Jean-François Bizot. Integrante do movimento de maio de 68. Tinha 63 anos de idade, era da minha geração. Em 68, eu tinha 21 anos de idade. Vivi aquela época conturbada, a sua ideologia, os seus sonhos, caminhos e descaminhos. Contra a autoridade, as proibições, os pais ou o que eles representavam. Contra a religião. A favor dos direitos do corpo. Faça o amor, não faça a guerra. Era um beco sem saída.

Bizot definia contra-cultura como: "ser capaz de não estar na linha, ter a coragem de fazer aquilo que sai dos esquemas da época". Mas a linha daquela época era aquela. Você tinha a linha e o anzol, só podia morder a isca e acabar fisgado.

O difícil mesmo, quase impossível, heróico, era roer essa linha. Eu roí.

Nenhuma nuvem no céu. Claridade, certeza, horizonte. Muito complicada a vida? Se quero respostas que não posso ter. Se não compreendo que o absoluto não é apreensível por meus sentidos parcos, limitados. Se me angustio porque me acho impotente ou, ao contrário, onipotente. Vivo a condição humana, e as nuvens passam, vão e vêm, a me lembrar que eu sou como elas: vim para passar. O que fica mesmo é o céu azul. A imagem de Deus, que não vemos, refletida nesse manso lago azul, turvado por nuvens ou cisnes brancos, passageiros como nós.

E o gavião, de ouro, segue seu rumo.

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