A história começou com Platão expulsando os poetas da sua
República: são improdutivos, indóceis, individualistas...
Sim, não vêem o bem geral, da coisa pública, mas o bem individual.
Professam a fé nos valores humanos, que se sedimentam na sensibilidade,
e são os arautos do Espírito.
Nunca fui tão ingênuo a ponto de pensar que a poesia pode mudar
a realidade. Que pode ter alguma influência política. Ontem mesmo
ouvi, numa reportagem comemorativa dos dez anos de sua morte, Drummond dizer
que é ilusão pensar que a poesia pode mudar alguma coisa. Mas
a Rússia perseguiu os seus poetas... Eu não disse que eles são
os arautos do Espírito?
A poesia sustenta a alma de um povo. T. S. Eliot afirmava que a poesia influencia
a linguagem e a sensibilidade de uma nação, tanto que é
impossível conceber-se um povo sem poetas. A vida não se restringe
ao cotidiano mesquinho. O homem carrega dentro de si uma pulsação
interior que o eleva a uma condição maior: é o conteúdo
espiritual do humanismo, ou, simplesmente, a poesia.
A poesia nasce da experiência pessoal do poeta e se tem alguma função
é a de comover o leitor com sua carga de beleza e, se comove, aumenta-lhe
a consciência dos valores existenciais.
Não se conhece impunemente um poema: a punição será
crescer espiritualmente. Tornar-se mais humano. Não rastejar apenas pelos
supermercados do consumo.
O homem precisa da poesia, porque precisa da beleza. A poesia é o alimento
do Espírito.
Portanto, não importa que a poesia não tenha nenhuma serventia.
Que se diga e se prove isso. A poesia é necessária, não
só para o próprio poeta, mas para a harmonia da humanidade.
Na não-serventia da poesia está a sua serventia. O seu uso. Eu
uso um sabonete para me lavar. Eu uso a poesia para lavar a minha alma. Eu uso
a poesia quando tudo o mais já foi descartado. O corpo é pobre
e putrescível. A alma é essencial - a ela pertence a poesia.
Sei que a poesia não pode mudar nada, aparentemente. Em essência,
muito muda. O Espírito anuncia que existe.
A poesia purifica a língua. Livra-a das rebarbas materiais, do superficial
e artificial, do lodo e do podre do tempo, e inscreve-a no eterno.
A língua também pertence ao eterno. Basta a poesia ofertá-la
ao seu altar. O homem perece, anula-se, é nada, vota-se ao nada. A poesia
prova que é espírito, que não morre.
Alguma dúvida de que a poesia fala pelo Espírito? Não é
apenas matéria. É a linguagem que vai além da matéria.
Se vai além da matéria, é a voz do Espírito.
O poeta cria imagens. As imagens criam o poema. O poeta fala pelo Espírito,
que se manifesta na linguagem humana, que fala com as imperfeições
da língua do homem. A função do poeta é purificar
a língua, torná-la tão sábia e santa que seja digna
do Espírito.
O mundo de hoje não tem transcendência? Não teria, se não
fosse a poesia. O poeta não é mais perseguido? Ninguém
o ouve mesmo? Eu diria que, se o homem morreu, também morreu a poesia.
Quem quiser abdicar da condição humana, que abdique. É
inerente à condição humana o espiritual, de que eu não
posso abdicar.
Enquanto houver valores humanos, haverá valores espirituais e haverá
os poetas, os arautos do Espírito.