A Garganta da Serpente
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Os arautos do espírito

(José Carlos Brandão)

A história começou com Platão expulsando os poetas da sua República: são improdutivos, indóceis, individualistas... Sim, não vêem o bem geral, da coisa pública, mas o bem individual. Professam a fé nos valores humanos, que se sedimentam na sensibilidade, e são os arautos do Espírito.

Nunca fui tão ingênuo a ponto de pensar que a poesia pode mudar a realidade. Que pode ter alguma influência política. Ontem mesmo ouvi, numa reportagem comemorativa dos dez anos de sua morte, Drummond dizer que é ilusão pensar que a poesia pode mudar alguma coisa. Mas a Rússia perseguiu os seus poetas... Eu não disse que eles são os arautos do Espírito?

A poesia sustenta a alma de um povo. T. S. Eliot afirmava que a poesia influencia a linguagem e a sensibilidade de uma nação, tanto que é impossível conceber-se um povo sem poetas. A vida não se restringe ao cotidiano mesquinho. O homem carrega dentro de si uma pulsação interior que o eleva a uma condição maior: é o conteúdo espiritual do humanismo, ou, simplesmente, a poesia.

A poesia nasce da experiência pessoal do poeta e se tem alguma função é a de comover o leitor com sua carga de beleza e, se comove, aumenta-lhe a consciência dos valores existenciais.

Não se conhece impunemente um poema: a punição será crescer espiritualmente. Tornar-se mais humano. Não rastejar apenas pelos supermercados do consumo.

O homem precisa da poesia, porque precisa da beleza. A poesia é o alimento do Espírito.

Portanto, não importa que a poesia não tenha nenhuma serventia. Que se diga e se prove isso. A poesia é necessária, não só para o próprio poeta, mas para a harmonia da humanidade.

Na não-serventia da poesia está a sua serventia. O seu uso. Eu uso um sabonete para me lavar. Eu uso a poesia para lavar a minha alma. Eu uso a poesia quando tudo o mais já foi descartado. O corpo é pobre e putrescível. A alma é essencial - a ela pertence a poesia.

Sei que a poesia não pode mudar nada, aparentemente. Em essência, muito muda. O Espírito anuncia que existe.

A poesia purifica a língua. Livra-a das rebarbas materiais, do superficial e artificial, do lodo e do podre do tempo, e inscreve-a no eterno.

A língua também pertence ao eterno. Basta a poesia ofertá-la ao seu altar. O homem perece, anula-se, é nada, vota-se ao nada. A poesia prova que é espírito, que não morre.

Alguma dúvida de que a poesia fala pelo Espírito? Não é apenas matéria. É a linguagem que vai além da matéria. Se vai além da matéria, é a voz do Espírito.

O poeta cria imagens. As imagens criam o poema. O poeta fala pelo Espírito, que se manifesta na linguagem humana, que fala com as imperfeições da língua do homem. A função do poeta é purificar a língua, torná-la tão sábia e santa que seja digna do Espírito.

O mundo de hoje não tem transcendência? Não teria, se não fosse a poesia. O poeta não é mais perseguido? Ninguém o ouve mesmo? Eu diria que, se o homem morreu, também morreu a poesia. Quem quiser abdicar da condição humana, que abdique. É inerente à condição humana o espiritual, de que eu não posso abdicar.

Enquanto houver valores humanos, haverá valores espirituais e haverá os poetas, os arautos do Espírito.

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