Começo a minha peregrinação pela Igreja Nossa Senhora
do Carmo, projetada pelo pai do Aleijadinho, que a terminou, e fez o altar lateral
de São João Batista e o de N. Sra. da Piedade, além do
Lavabo da Sacristia. Que Santo Furor moveu a mão desse artista sofredor?
Que Fé moveu a cobiça desse povo a Santa Fé que
move montanhas, extraindo o ouro das suas entranhas para erguer esses
monumentos dignos somente de Deus?
Falei que comecei a minha peregrinação porque foi uma
peregrinação que eu empreendi, uma caminhada buscando um lugar
que somente a fé explica, que foi a fé e sua força tamanha,
e suas contradições, que ergueu. Qual é a jóia mais
preciosa do universo? O homem quer erguer templos preciosos como uma jóia,
que se multiplica, para chegar a Deus, a jóia mais preciosa.
Mas preciso caminhar, e entro no Museu da Inconfidência, solene e algo
misterioso. Cada passo que dou neste lugar é um passo rumo ao incógnito,
lá onde mora o tempo com suas barbas antiqüíssimas. Vou separar
duas imagens deste museu, não quero falar muito. A primeira são
os madeiros do cadafalso de Tiradentes. Quase escrevo da cruz, que foi numa
cruz que primeiro pensei quando vi os estranhos madeiros, cruzando-se como as
traves de uma cruz. Não foi à toa que representaram Tiradentes
como a figura de um Cristo, com longas vestes e barbas, e o olhar sofredor,
nesta terra de tantos Cristos agoniados.
A segunda imagem é a do Pelicano Eucarístico, que vi novamente
no Seminário São José, em Mariana. O pelicano é
bem o símbolo de Cristo, que deu o próprio sangue pelos seus filhos.
Lembro-me do poema que tive a ousadia de cometer: "Pelicano": "Abro
o peito/ para o meu filho, o poema." Há algo de elevado, de sagrado
no poema. Poderia muito bem ser um pleito ao divino. Mas seu eu soubesse dessa
simbologia crística, teria vergonha de escrever esse poema.
Volto a Tiradentes. Na praça, em frente ao museu, o monumento aos Inconfidentes.
E a lembrança: neste lugar ficou exposta à execração
pública a cabeça de Tiradentes. Nenhuma explicação
todos sabemos da degola do cadáver, do esquartejamento,
a cabeça e o corpo e membros salgados para que se conservassem, e que
todos aprendessem a lição: Este é o destino de quem se
levanta contra a coroa. Pouco importa quem foi Tiradentes, o quanto de herói
ou fantoche foi. Lembro quanto pode ser cruel o homem, bestial. E querem que
Deus ou a História nos perdoem. Bestiais.
Volto à paz na Igreja de São Francisco de Assis, do amor aos
animais, da humildade, e tanta que tem sempre nas mãos uma caveira: Somos
nada, todos nos nivelaremos quando formos caveiras. Por isso no seu poema mais
famoso, o Cântico ao Sol, também conhecido como Hino à Vida
é um hino à vida! , lemos este verso singelo e terrível
(que eu emprestei para usar num poema meu, não sou original): "Louvada
seja a morte, nossa irmã."
Desço mais alguns passos ah, quanto descer e subir ladeira! Como
têm boas pernas os mineiros, ou como têm santidade, segundo uma
companheira de peregrinação... Mas desço alguns passos,
sofridos, doídos, que não tenho pernas tão boas, e muito
menos santidade, e chego à Igreja de Nossa Senhora das Mercês e
Perdões (Mercês de Baixo, que há mais igrejas dedicadas
a N. S. das Mercês, que mercês do Alto é o que mais se precisava
nesta terra de infortúnio). É uma igreja pobre, o teto apresenta
buracos, as tábuas podres ao abandono. Chego na hora da bênção
final do bispo, que celebra a missa com o povo simples do lugar.
Irei participar da celebração eucarística do começo
ao fim! na Igreja Nossa Senhora da Conceição. É
preciso dar graças a Deus por estar aqui, por este mergulho na história,
que é quase um mergulho no mistério. Quase, digo, porque mistério
é o nome de Deus. Mas não mergulhamos no mistério, em Deus?
Que o Altíssimo me perdoe, mas o homem é um bicho tão pequeno
e quer voar até o Absoluto. E quem me garante que não voa? Ou
mergulha. Saio banhado, senão de ouro, pelo menos de luz. Tanto que pensei
em dar a esta crônica o título de Êxtase em Ouro Preto
porque Contemplação já é o nome do livro de poemas
de Murilo Mendes, como se eu me atrevesse a ir além de um dos maiores
poetas brasileiros e estupendo poeta religioso.
No dia seguinte, sou enviado a mais uma celebração do Mistério
Eucarístico, na Igreja N. S. do Pilar. É a mais rica das igrejas
que vi, essa e a Catedral da Sé, em Mariana. O Padre Simões permite
algumas fotos, lembrando várias vezes, durante a missa e depois, do povo
peregrino de Bauru. Lembra-nos da íntima ligação entre
a arte e a fé, que não podemos ver apenas o aspecto material,
a riqueza das igrejas. Não precisava, querido padre, eu sei que a fé
e a arte são manifestações do espírito do homem,
é com a arte que eu dou uma forma visível ao que eu tenho de espiritual,
de que a fé faz parte. As obras do Aleijadinho, de Mestre Ataíde
e de outros artistas são a forma concreta de sua fé, retratam
a fé do seu tempo, com todo o seu estranhamento. Mas o que não
é estranho neste mundo? O vulgar? Se o espírito for estranho,
estou cansado de facilidades vulgares e, portanto, não tenho como não
escolher o estranho e difícil campo do espírito.