A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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O muro de Berlim, 09-11-1989

(José Carlos Brandão)

Há uma fenda no muro; na fenda, uma cabeça; um homem olha; os olhos não estão muito abertos, mas ele vê. O homem conhece a realidade do outro lado. O sorriso contido nos lábios e o cenho franzido: não esconde a preocupação. O futuro se esconde sob uma névoa cinza; está muito distante. Os lábios abertos, os dentes à mostra, podem não ser um sorriso; ou mal disfarçar um sorriso de caçoada, ou um tique nervoso: a cabeça está estrangulada no vão do muro; um ferro do concreto asfixia-lhe a garganta. O muro é cinza, o que não é novidade: todo muro é cinza; mas tem um quê de permanência, este muro; resiste; como uma idéia, não quer ruir.

Do lado de cá, duas pessoas passam. Não se mostram; passam. O corpo coberto por grossos capotes, a cabeça enterrada em pesados gorros de lã. De uma vê-se apenas uma parte da cabeça; do gorro, se preferirem. Da outra, vê-se meio corpo; uma bolsa a tiracolo faz supor uma mulher; nem o sexo das pessoas se distingue. São anônimos, que passam; passageiros, estrangeiros: a história é feita de anônimos. Nós, que olhamos, somos anônimos. Não haveria apenas três pessoas diante do muro, mas uma multidão; estranhos, que passam e não se reconhecem. O muro isola as pessoas, tira-lhes a face e o nome; há uma face na fenda do muro, mas já sem dono: pertence à história.

Há uma letra enorme no muro, mas está cortada; deve ser um R, mas bem pode ser também um K. Um K de Kafka ou de um de seus personagens absurdos, anônimos; está seguida de reticências, é uma incógnita: nem se sabe se é um K, se um R amputado. As reticências, por quê? Seria um R de RDA, da República Democrática Alemã? Tem algum significado esse R ou K? O muro é um signo; a letra, uma letra morta. Quis significar alguma coisa? Já não significa. Ou contribui para compor a nossa face absurda. Perdemos o nome; somos uma incógnita perdida no tempo.

Perdemos o nome e a face; nem sequer somos a multidão em pé diante do muro, a multidão que não tem nome ou face; nem somos as pessoas que se escondem ou a que anseia por se mostrar. Ganharam o anonimato da história; nós ganhamos o muro, que ruiu, mas que, como uma idéia, permanece. Pode não ser a idéia que representava, a noção política; é a pedra que obstrui, que separa, até quando não mais separa; e apaga. Tudo é tão distante, irreal, alheio, história, passado. Um homem é um homem; escreve a sua história com sangue, ou é um elo abstrato.

Caiu o muro que dividia Berlin e o mundo em dois blocos antagônicos, o comunismo e o capitalismo. Eram 302 torres de observação, 127 redes metálicas eletrificadas e com alarme e 255 pistas vigiadas por ferozes cães de guarda. Provocou a morte de 80 pessoas (identificadas; mas lembremos que todas as informações eram censuradas), 112 ficaram feridas e milhares aprisionadas nas diversas tentativas de atravessá-lo. O muro era principalmente o que simbolizava. A sua queda reunificou a Alemanha e acabou com acabou com a Guerra Fria.

Mas a guerra está em nós. O mundo ficou melhor depois disso? O homem desistiu de tentar destruir o seu domicílio, a Terra? Agora é o Islamismo contra o Cristianismo. Extremistas contra extremistas, sob o disfarce da religião: o que vige mesmo é um certo tipo de capitalismo imperialista contra outro certo tipo imperialismo capitalista. O ouro negro move montanhas, desertos, oceanos, impérios. O ouro negro vai nos sufocar. O homem continua a escrever a sua história com sangue. Um dia não teremos mais passado. Um dia muito próximo, quando não soubermos se teremos futuro. E tudo começou com um muro, cimentado com sangue e carne humana.

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