Há uma fenda no muro; na fenda, uma cabeça; um homem olha; os olhos
não estão muito abertos, mas ele vê. O homem conhece a realidade
do outro lado. O sorriso contido nos lábios e o cenho franzido: não
esconde a preocupação. O futuro se esconde sob uma névoa
cinza; está muito distante. Os lábios abertos, os dentes à
mostra, podem não ser um sorriso; ou mal disfarçar um sorriso de
caçoada, ou um tique nervoso: a cabeça está estrangulada
no vão do muro; um ferro do concreto asfixia-lhe a garganta. O muro é
cinza, o que não é novidade: todo muro é cinza; mas tem um
quê de permanência, este muro; resiste; como uma idéia, não
quer ruir.
Do lado de cá, duas pessoas passam. Não se mostram; passam. O corpo
coberto por grossos capotes, a cabeça enterrada em pesados gorros de lã.
De uma vê-se apenas uma parte da cabeça; do gorro, se preferirem.
Da outra, vê-se meio corpo; uma bolsa a tiracolo faz supor uma mulher; nem
o sexo das pessoas se distingue. São anônimos, que passam; passageiros,
estrangeiros: a história é feita de anônimos. Nós,
que olhamos, somos anônimos. Não haveria apenas três pessoas
diante do muro, mas uma multidão; estranhos, que passam e não se
reconhecem. O muro isola as pessoas, tira-lhes a face e o nome; há uma
face na fenda do muro, mas já sem dono: pertence à história.
Há uma letra enorme no muro, mas está cortada; deve ser um R, mas
bem pode ser também um K. Um K de Kafka ou de um de seus personagens absurdos,
anônimos; está seguida de reticências, é uma incógnita:
nem se sabe se é um K, se um R amputado. As reticências, por quê?
Seria um R de RDA, da República Democrática Alemã? Tem algum
significado esse R ou K? O muro é um signo; a letra, uma letra morta. Quis
significar alguma coisa? Já não significa. Ou contribui para compor
a nossa face absurda. Perdemos o nome; somos uma incógnita perdida no tempo.
Perdemos o nome e a face; nem sequer somos a multidão em pé diante
do muro, a multidão que não tem nome ou face; nem somos as pessoas
que se escondem ou a que anseia por se mostrar. Ganharam o anonimato da história;
nós ganhamos o muro, que ruiu, mas que, como uma idéia, permanece.
Pode não ser a idéia que representava, a noção política;
é a pedra que obstrui, que separa, até quando não mais separa;
e apaga. Tudo é tão distante, irreal, alheio, história, passado.
Um homem é um homem; escreve a sua história com sangue, ou é
um elo abstrato.
Caiu o muro que dividia Berlin e o mundo em dois blocos antagônicos, o comunismo
e o capitalismo. Eram 302 torres de observação, 127 redes metálicas
eletrificadas e com alarme e 255 pistas vigiadas por ferozes cães de guarda.
Provocou a morte de 80 pessoas (identificadas; mas lembremos que todas as informações
eram censuradas), 112 ficaram feridas e milhares aprisionadas nas diversas tentativas
de atravessá-lo. O muro era principalmente o que simbolizava. A sua queda
reunificou a Alemanha e acabou com acabou com a Guerra Fria.
Mas a guerra está em nós. O mundo ficou melhor depois disso? O homem
desistiu de tentar destruir o seu domicílio, a Terra? Agora é o
Islamismo contra o Cristianismo. Extremistas contra extremistas, sob o disfarce
da religião: o que vige mesmo é um certo tipo de capitalismo imperialista
contra outro certo tipo imperialismo capitalista. O ouro negro move montanhas,
desertos, oceanos, impérios. O ouro negro vai nos sufocar. O homem continua
a escrever a sua história com sangue. Um dia não teremos mais passado.
Um dia muito próximo, quando não soubermos se teremos futuro. E
tudo começou com um muro, cimentado com sangue e carne humana.