A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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O pelicano e o amigo do pelicano

(José Carlos Brandão)

Estive em Curitiba em julho, na volta escrevi uma longa crônica, longa mas ruinzinha. Com uma boa podada, apresento aqui a parte aproveitável dela. A história do pelicano e do seu amigo polaco.

A Sônia gosta de visitar o pelicano que vive no Passeio Público, num amplo cercado, exibindo-se e furtando-se aos olhares das crianças, dos velhos e de todos que têm também um pouco o espírito da criança e do velho. Uma menina tentava fotografar o pelicano, procurava um ângulo melhor, as grades da cerca dificultando. O pelicano não parava no lugar, naturalmente - só faltava o bicho fazer pose para a fotógrafa desajeitada. Então apareceu o polaco, com um meio sorriso nos lábios, com uma leve malícia brincalhona. Chamou o pelicano para lá, para cá, fez com que o seguisse, obediente, amigo.

Amigo é a palavra. O polaco é o amigo do pelicano, todos os dias vai visitá-lo (com exceção da segunda-feira, quando o Passeio não abre). Uma vez, por motivo de viagem, esteve ausente por vinte dias. Resultado: o pelicano ficou doente. Amuado, não comia, cada vez mais triste e fraco. Foi só o polaco voltar que a vida voltou. Alegre, imponente, senhor do seu cercado - onde ignora os gansos e patos que convivem com ele.

O polaco foi nos contando como o pelicano lhe obedece, vai tomar banho no ribeirão aos fundos do cercado, mesmo se estiver frio (e ele não gosta de tomar banho! Não sei como contou isso ao seu amigo humano, mas deve ter contado).

Uma beleza vê-lo abrir as asas se exibindo, se pavoneando, como se fosse um pavão! Bravo quando uma criança se aproxima, grita, quer bicar, se defendendo. Uma menina, conta o polaco, espetou-lhe a cara com uma vara, junto ao bico, pouco abaixo dos olhos. Levou um mês para sarar - o ódio ficou. Essa é uma ferida que não sara e, assim, o pelicano detesta crianças.

Detesta também as mulheres. O polaco não dá uma explicação para esse fato; apenas admirou-se de que o pelicano e a Sônia se comunicavam. Não sei o que os dois se disseram, mas o polaco sentiu que se comunicavam. Disse:

- Estranho. Ele não gosta de mulheres. Você é especial.

E logo foi se afastando, através da ponte sobre o ribeirão do Passeio Público, e abanando para o pelicano que, de asas semi-abertas ficava atrás das grades olhando-o com o seu ar triste. Disse, ainda:

- Ele vai ficar aí me esperando. Se daqui a uma hora eu voltar, ele estará aí de asas abertas me esperando.

Nós também nos retiramos. Fiquei pensando no pelicano solitário. Não encontraram nenhuma fêmea para consolá-lo dessa dor maior, a solidão. O pelicano é um ser incompleto sem a esposa, e os filhos, e a morte amorosa em prol dos filhos. Não é à toa que tem o bico grande, em forma de concha: é para enfiá-lo no peito e tirar o próprio sangue para alimentar os filhos. Lembrando esse fenômeno do amor, há uns dez ou quinze anos, escrevi o poema "O Pelicano": "Abro o peito/ para o meu filho, o poema".

Fomos embora, com um travo de saudade já, nos lábios ou na garganta, talvez dentro do peito. Sempre que partimos estamos perdendo alguma coisa. Estamos levando alguma coisa conosco, crescemos em cada despedida, mas é muito mais o que deixamos e um sentimento de vazio nos acompanha. Mesmo se o objeto do desejo for um simples pelicano. Poderia ser uma pedra, ou uma pétala na água, indo-se para sempre. Costumo dizer que para sempre é muito tempo, mas as coisas que deixamos, as coisas que perdemos, deixamos e perdemos irremediavelmente.

Olhamos para trás - sempre se olha para trás quando se parte, quando se perde - e vimos, além das águas apressadas do ribeirão, o pelicano batendo as asas como se fossem lenços brancos a nos dizer adeus. Talvez ainda nos vejamos, mas este encontro não se repetirá, ficará para sempre - para sempre! - perdido nas dobras do tempo, irremediavelmente.

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