Sempre que visito Curitiba, vou ao Passeio Público procurar a sombra
de Dalton Trevisan . Onde estará o Vampiro das almas, dos corações
solitários, que viveu e morreu na Rua Emiliano Perneta? Só pode
estar no Passeio Público, que ainda conserva o ar provinciano e infeliz
das polaquinhas de Dalton Trevisan.
Cumprimento o pelicano, garboso, sempre lá à beira do seu lago
e do seu ribeirão, à minha espera. É como se todos os bichos
estivessem à minha espera. Encontro a paz neste lugar, sombreado, sossegado,
em companhia dos bichos, que não têm as complicações
da alma humana a atormentá-los.
Caminho através da pontezinha, das aléias com pouco sol, saudado
por bichos belos e divertidos. Até encontrar os elefantes. Não
aqueles mamíferos herbívoros de grande porte, africanos ou asiáticos,
únicos animais de quatro joelhos. Não: eu me refiro aos elefantes
de Dalton Trevisan. Aqueles que ele retratou no conto "Cemitério
de Elefantes".
Um me estende a mão, pedindo um cigarro. Outro pede uma moeda. Não
são gulosos, não querem extorquir os olhos de ninguém.
Querem um cigarro; se não tiver, uma moeda - não escondem que
é para a aguardente mesmo. Proliferaram os pedintes em Curitiba; há
uns dois anos quase não existiam. A miséria se alastra, implacavelmente.
Os elefantes, expulsos do seu lar sob as ingazeiras da Ponte Preta, vieram esperar
a morte neste duro inverno sob as araucárias do Passeio Público,
ao pé do lago dos gansos e dos macacos brincalhões. Aqueles nadam
mansamente nas águas frias, indiferentes à temperatura e à
curiosidade humana. Estes pulam de um galho a outro, bem no alto das árvores
no meio do lago, fazendo caretas e trejeitos como se se divertissem às
nossas custas. Os elefantes, com as pernas gordas, cobertas de uma crosta grossa,
enfeitadas com feridas que doem só de ver.
Os elefantes com os olhos baços, envoltos de uma membrana ou uma névoa
pegajosa, doendo. Os elefantes sabem doer, sabem fazer doer. Era no Passeio
Público que eu haveria de encontrar a sombra de Dalton Trevisan. Era
através dessa névoa meio amarelada, cinzenta, doída. Era
sob alma desses velhos elefantes cansados, vagarosos, cansados de viver, jogando
uma partida infindável de xadrez com a morte (como se fossem personagens,
não de Dalton, mas de Bergman).