A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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O Aleijadinho

(José Carlos Brandão)

Deixei os pedaços da minha carne nas ladeiras de Ouro Preto.
Entre as pedras do calvário das ladeiras de Ouro Preto
deixei os pedaços da minha carne e dos meus ossos.
Mutilado pelo divino, esculpo as formas do divino.
Sou a desgraça ambulante, frio como as pedras que eu talho.
O meu coração é de pedra e rói como o ódio.
Eu trabalho o corpo de Deus, eu, o sem-corpo.
Sem alma, adivinho a alma de Jesus e dos Profetas.
A alma conturbada com o enxovalho do mundo.
Eu tenho alma: é minha essa alma conturbada.
A pedra me obedece com uma fé cega.
Deixei um pedaço do meu nariz na pedra cega.
A minha fronte, as minhas faces, o meu beiço
estão grudados na pedra. Por isso a pedra sofre.
O cinzel amarrado no coto da minha mão
faz saltar lágrimas e sangue da pedra muda.
Deus foi cruel comigo: eu talho a imagem de Deus cruel.
Talho a imagem de Deus à minha imagem.
Deus é misericordioso em sua crueldade e não me mata.
A pedra sabe e fala sob o meu cinzel.
Jesus olha para a terra: somos pó,
caminhamos para a sombra do pó.
Daniel olha para o céu: o mistério nos espera.
O leão olha para o alto, ruge, interroga, quer.
O homem mutilado se arrasta na terra como a serpente.
Do fundo do meu horror, olho para o céu - petrificado.

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