Deixei os pedaços da minha carne nas ladeiras de Ouro Preto.
Entre as pedras do calvário das ladeiras de Ouro Preto
deixei os pedaços da minha carne e dos meus ossos.
Mutilado pelo divino, esculpo as formas do divino.
Sou a desgraça ambulante, frio como as pedras que eu talho.
O meu coração é de pedra e rói como o ódio.
Eu trabalho o corpo de Deus, eu, o sem-corpo.
Sem alma, adivinho a alma de Jesus e dos Profetas.
A alma conturbada com o enxovalho do mundo.
Eu tenho alma: é minha essa alma conturbada.
A pedra me obedece com uma fé cega.
Deixei um pedaço do meu nariz na pedra cega.
A minha fronte, as minhas faces, o meu beiço
estão grudados na pedra. Por isso a pedra sofre.
O cinzel amarrado no coto da minha mão
faz saltar lágrimas e sangue da pedra muda.
Deus foi cruel comigo: eu talho a imagem de Deus cruel.
Talho a imagem de Deus à minha imagem.
Deus é misericordioso em sua crueldade e não me mata.
A pedra sabe e fala sob o meu cinzel.
Jesus olha para a terra: somos pó,
caminhamos para a sombra do pó.
Daniel olha para o céu: o mistério nos espera.
O leão olha para o alto, ruge, interroga, quer.
O homem mutilado se arrasta na terra como a serpente.
Do fundo do meu horror, olho para o céu - petrificado.