Roman Jakobson, em "Lingüística e Poética", levanta
a hipótese de que a dislexia pode estar na base de toda criação
poética. Infelizmente, que eu saiba, não desenvolveu mais profundamente
o tema.
Muitos gênios da humanidade são tidos como disléxicos: Agatha
Christie, Albert Einstein, Auguste Rodin, Charles Darwin, Hans Christian Anderson,
Leonardo da Vinci, Lewis Carroll, Mark Twain, Michelangelo, Picasso, Rafael,
Francis Bacon, Thomas A. Edison, Vincent Van Gogh, Walt Disney, William Butler
Yeats. Não há provas, ninguém pôde estudá-los
cientificamente. Mas é um belo consolo, diria mesmo que é um formidável
estímulo.
Quando adolescente, levado por uma - esta sim! - formidável dificuldade
de aprender, me auto-diagnostiquei como disléxico e pus-me a fazer uma
série pesada de exercícios de dicção. Certo ou errado,
o fato é que deixei de ser o estúpido da turma e passei a ser
um dos primeiros ou, quando queria, o primeiro. Ao mesmo tempo, tornei-me, ou
descobri-me, poeta.
Poderia ser o fato de ter sido alfabetizado em escolinha de sítio que
retardou meu desenvolvimento, mas a mudança abrupta que se operou em
mim, mal descobri a linguagem, foi surpreendente. Não é feita
de palavras vazias, apenas grandiloqüentes, a frase: "Quem descobre
a linguagem, descobre o mundo."
Descobri o mundo e a poesia. O poeta pensa por imagens, como o disléxico.
Muitas vezes quero escrever "coisa", e escrevo "ciosa",
troco "alma" por "lama", "corpo" por "porco".
Muitas vezes as letras embaralham-se tanto que não consigo decifrar o
que digitei. São inescrutáveis os caminhos da criação
de uma imagem. Esse poderia ser um. Há muitas imagens que me vêm,
claramente, desse embaralhar de letras ou fonemas.
Não é famosa a escrita espelhada de Leonardo da Vinci? O espelhamento
é característica da dislexia. Quando Michelangelo - disléxico
e poeta como Leonardo da Vinci - ergueu o martelo contra o joelho de Davi, gritando-lhe:
"Fala!", estava dando-nos um índice da perfeição
de sua arte, que só faltava falar, mas também outro índice,
cifrado, da sua dificuldade de linguagem, de sua dislexia - tão criativa.
Rodin era outro escultor obsessivo com a perfeição, como se quisesse
fazer suas figuras falarem, como se o seu "Beijo" beijasse ou o seu
"Pensador" pensasse. O "Pensador" é um ser que faz
um esforço ingente para, justamente, pensar. Rodin estaria se auto-retratando
como disléxico.
São famosos os poemas de Lews Carrol, intrincados jogos verbais de alguém
que esculpe com a linguagem, à procura da forma - o que a maioria dos
poetas faz mais discretamente, como se não quisessem revelar a gênese
de sua técnica, seu cérebro que pensa diferente. Van Gogh criou
uma nova cor, descobriu tonalidades diferentes, na ânsia de retratar a
sua maneira diferente de ver, que poderia ser a de um disléxico. Picasso,
quando pintou as "Demoiselles d'Avignon" não estava apenas
inaugurando uma nova forma de arte, o Cubismo, mas também a maneira de
ler - quem sabe dislexicamente - a realidade.
A dificuldade de Einstein para aprender não era apenas a de um disléxico
que ainda não descobrira como usar criativamente o seu cérebro?
Lembram-se do "estalo" de Vieira? O "imperador da língua
portuguesa", como o chama Fernando Pessoa, apenas descobriu a linguagem.
A "Descoberta do Mundo" de que fala Clarice Lispector - que tinha
a língua presa! - não é mais do que a descoberta da linguagem.
Orfeu desceu aos infernos porque a sua arte tinha beleza divina. Dante Alighieri,
o criador da língua italiana, clareava as sendas por onde o seu cérebro
viajaria quando criou o seu "Inferno", lembrando-nos de que o artista
é um condenado à beleza, por maiores que sejam as suas limitações.
Rodin em sua obsessão perfeccionista não terminou o portal do
Inferno, que o levaria ao próprio Inferno. Rimbaud, mais um atormentado,
também foi a "Uma estação no Inferno" quando
arrebentou as válvulas da linguagem, criando a poesia moderna.
Vou mexer com o meu amigo Vitor Martinello, o poeta de Bauru, que inventou uma
instigante e crítica e lúdica "Lixeratura" arrombando
os diques da linguagem como um menino que desmonta um relógio para ver-lhe
as entranhas e descobrir-lhe a mágica. Não é outra a lição
de Manoel de Barros, que acaba de completar 91 anos de idade e continua arrombando
as entranhas das palavras, virando-as do avesso para descortiná-las em
sua forma virginal, larvar, paradisíaca, isto é, encantada. (Não
estou dizendo que o Vitor seja um gênio, não exagero tanto; talvez,
como eu, não apresente sintomas nem de dislexia.)
A dislexia é uma bênção e um tormento. Como a poesia,
como a genialidade, não vem no mesmo grau, não atormenta igualmente,
mas dá frutos. Não é preciso amaldiçoá-la
porque nos atrapalha a vida. Pode estar nos abrindo caminhos maravilhosos para
uma vida mais criativa. A intuição do criador pode ser muito bem
um estalo de gênio - disléxico.